"Hinduísmo"
Enquadramento histórico
O hinduísmo constitui uma das tradições religiosas mais antigas ainda em continuidade histórica, enraizada no subcontinente indiano e desenvolvida ao longo de milénios a partir da civilização védica. Não possui fundador histórico nem um sistema doutrinal único, configurando antes um macroconjunto de tradições religiosas, filosóficas e rituais.
A designação “hinduísmo” é exógena e posterior, sendo a auto-designação tradicional mais comum Sanātana Dharma (“ordem eterna”).
Ontologia e teologia
Brahman e absoluto
O Brahman constitui o princípio absoluto da realidade:
- infinito, impessoal ou pessoal conforme as escolas;
- fundamento de tudo o que existe;
- realidade última para além das categorias empíricas.
Ātman
O Ātman é o princípio interior do ser humano:
- essência espiritual imutável;
- idêntico ao Brahman nas escolas não-dualistas (Advaita Vedānta);
- sujeito da continuidade existencial.
Criação do mundo (cosmogonia)
O hinduísmo não apresenta uma única narrativa cosmogónica, mas múltiplas interpretações simbólicas e filosóficas.
Modelo purânico clássico
Uma das versões mais difundidas descreve:
- Vishnu repousa num oceano cósmico primordial;
- do seu umbigo emerge um lótus;
- do lótus surge Brahma, que organiza e cria o universo.
Este modelo expressa a ideia de que a criação não é absoluta, mas derivada de um princípio transcendente.
Modelo cíclico
Outra concepção fundamental afirma:
- o universo não tem criação única;
- existe um ciclo eterno de criação, manutenção e destruição;
- o cosmos emerge e dissolve-se repetidamente.
Criação do ser humano (antropogénese)
A antropogénese no hinduísmo é inseparável da cosmologia.
Origem do humano
O ser humano é entendido de forma não isolada, mas integrada no cosmos:
- em algumas tradições, criado por Brahma como parte da ordenação do mundo;
- em outras, manifestação gradual do Brahman através da natureza (prakṛti);
- sempre inserido na continuidade cósmica.
Constituição do ser humano
O humano é composto por:
- corpo material (śarīra / prakṛti);
- mente e faculdades internas (manas, buddhi, ahaṃkāra);
- princípio espiritual (ātman).
A essência humana não é criação ex nihilo, mas expressão de uma realidade cósmica pré-existente.
Mundo e realidade (cosmologia filosófica)
O mundo (jagat) é caracterizado por:
- impermanência;
- ciclicidade;
- ordenação por leis cósmicas (ṛta/dharma);
- relação de dependência ontológica em relação ao Brahman.
Em algumas escolas, o mundo fenoménico é interpretado como māyā, isto é, realidade condicionada e não absoluta.
Condição humana: samsāra, karma e libertação
Samsāra
Ciclo de existência condicionada:
- nascimento;
- morte;
- renascimento.
Karma
Lei causal moral:
- acções determinam consequências futuras;
- estrutura a continuidade do samsāra.
Moksha
Libertação final:
- cessação do ciclo de renascimentos;
- realização do absoluto (Brahman);
- transcendência da ignorância (avidyā).
Culto, rituais e práticas religiosas (dimensão cultual)
A dimensão cultual do hinduísmo é extremamente diversificada e estruturalmente central.
Pūjā (culto devocional)
O principal acto ritual consiste na pūjā:
- oferendas de flores, luz, alimentos e incenso;
- invocação da presença divina em imagens (mūrti);
- relação pessoal entre devoto e divindade.
A divindade é concebida como presença real e activa, não apenas símbolo.
Ritual védico
Em tradições mais antigas:
- rituais sacrificiais (yajña);
- recitação de hinos védicos;
- manutenção da ordem cósmica através do rito.
Yoga e meditação
Práticas de interiorização espiritual:
- controlo dos sentidos;
- concentração e contemplação;
- integração corpo-mente-espírito.
Peregrinações
Locais sagrados incluem:
- rio Ganges (purificação espiritual);
- cidades como Varanasi;
- templos associados a manifestações divinas.
Festividades
Expressões colectivas da religiosidade:
- Diwali: vitória da luz sobre a escuridão;
- Holi: celebração da renovação e da vida.
Estrutura teológica e divindades
O hinduísmo combina monismo e politeísmo funcional:
- Brahma: criação;
- Vishnu: preservação;
- Shiva: destruição e regeneração;
- Devi (formas femininas): energia divina dinâmica;
- Lakshmi: prosperidade;
- Saraswati: conhecimento.
Escrituras
Śruti (revelação)
- Vedas;
- Upaniṣads.
Smṛti (tradição)
- Mahābhārata (inclui Bhagavad Gītā);
- Rāmāyaṇa;
- Purāṇas;
- textos jurídicos e éticos (Dharmaśāstras).
Caminhos espirituais
- Karma yoga: acção desinteressada;
- Bhakti yoga: devoção;
- Jñāna yoga: conhecimento;
- Rāja yoga: disciplina meditativa.
Síntese conclusiva
O hinduísmo estrutura-se como um sistema religioso plural, assente em três eixos fundamentais:
- uma ontologia do absoluto (Brahman);
- uma cosmologia cíclica do mundo;
- uma antropologia espiritual baseada no ātman.
A criação do mundo e do ser humano não é concebida como evento único, mas como manifestação contínua do absoluto. A dimensão cultual (ritos, devoção, yoga e peregrinação) constitui o modo privilegiado de relação entre o humano e o divino, articulando prática, metafísica e ética.
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