"Lição Desconfortável"

 Amar é bom… se é… mas talvez a verdadeira questão nunca tenha sido o amor em si, mas a forma como uma mulher se perde dentro daquilo que deveria apenas atravessar.

Há uma imagem antiga, de uma precisão quase cruel, que resiste ao tempo precisamente por não necessitar de explicação: uma abelha a afogar-se em mel. À primeira vista, trata-se de uma contradição. Algo que deveria nutrir torna-se aquilo que impede o movimento. Algo que sustenta a vida transforma-se no meio onde a vida se extingue.

Mas esta imagem torna-se ainda mais inquietante quando se recupera um dado esquecido da história material do mundo: o mel foi, em certas civilizações antigas, utilizado como agente de conservação de cadáveres. A sua densidade, a sua composição e a sua capacidade antibacteriana permitiam suspender a decomposição, mantendo o corpo intacto, preservado, imóvel no tempo. Isto é, o mel não servia apenas para alimentar a vida — servia também para impedir a transformação da morte.

E é precisamente aqui que a metáfora deixa de ser apenas poética e passa a ser desconcertante.

Porque o mel não é apenas excesso de doçura. É também suspensão. É aquilo que conserva, que impede o fim visível, que mantém a forma quando a dinâmica já deveria ter seguido o seu curso. E o que é preservado em excesso deixa de viver — apenas permanece.

No plano humano, esta lógica é silenciosamente devastadora.

Há relações, vínculos e afetos que não se rompem por ausência de amor, mas por saturação do mesmo. Onde a presença deixa de ser encontro e passa a ser invasão contínua. Onde o cuidado deixa de ser gesto e se transforma em vigilância emocional. Onde a ligação deixa de permitir espaço interno e passa a ocupar integralmente a consciência, como um meio viscoso onde já não se distingue o dentro do fora.

E nesse ponto, o amor já não se reconhece como amor. Não porque desapareceu, mas porque perdeu as condições ontológicas da sua própria respiração.

A mulher, nesse estado, não se afasta de si por decisão consciente, mas por progressiva imersão. O excesso não chega como violência explícita; chega como continuidade. Como insistência. Como permanência do que deveria oscilar. E aquilo que não oscila deixa de permitir leitura interior.

O mais inquietante, porém, é que o excesso raramente se apresenta como tal. Veste-se de virtude. De entrega. De intensidade afetiva. De dedicação absoluta. Como se a recusa de limite fosse prova de autenticidade emocional, quando, na realidade, pode ser apenas incapacidade de separação entre amor e dissolução.

Nos afetos, isto traduz-se de forma particularmente subtil: a vigilância substitui o encontro, a ansiedade substitui a presença, a necessidade de resposta contínua substitui a confiança no silêncio. E aquilo que deveria ser relação transforma-se em campo de pressão constante, onde qualquer distância é interpretada como ameaça.

Mas há um ponto mais profundo ainda: a permanência sob excesso não é apenas desconforto — é preservação do que já não vive plenamente. Tal como o mel preserva o corpo sem o deixar decompor, certas dinâmicas emocionais preservam a forma da relação, mas retiram-lhe o movimento interno. Mantém-se a estrutura, mas não a vitalidade.

E é aqui que surge a confusão mais perigosa: interpretar a intensidade como profundidade, quando muitas vezes ela é apenas saturação.

A mulher, nesse contexto, pode começar a confundir amor com permanência forçada, dedicação com autoanulação, ligação com impossibilidade de distância. E quanto mais tenta corrigir o desequilíbrio com esforço, mais se aproxima do ponto em que já não distingue onde termina o cuidado e onde começa a perda de si.

A abelha, na sua imagem original, não morre por agressão externa. Morre por imersão contínua. Por ausência de margem. Por inexistência de intervalo entre si própria e aquilo que a envolve.

E talvez seja essa a verdadeira lição desconfortável: o problema nunca foi o mel.

O problema foi a perda de distância suficiente para continuar a existir dentro dele sem desaparecer.

Porque há substâncias que alimentam a vida.

E há substâncias que, quando absolutizadas, preservam apenas a forma do que já não respira.

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