“A Língua Portuguesa e a Arte de Humilhar Adultos Funcionais”

Há um momento na vida de qualquer falante de português em que a autoconfiança desaparece.

Não é quando recebe uma carta das Finanças.

Embora seja semelhante.

É quando precisa de escrever:

“Se eu vir…”

E o cérebro, subitamente, entra em modo de emergência.

Porque a língua portuguesa possui um passatempo muito específico:

humilhar pessoas perfeitamente alfabetizadas.

Uma pessoa pode:

  • ter licenciatura;
  • mestrado;
  • doutoramento;
  • carreira internacional;
  • publicar artigos científicos;
  • gerir equipas;
  • falar três línguas;

e, ainda assim, parar durante quinze segundos diante de:

“Se eu vir” ou “se eu ver”?

A gramática portuguesa é assim.

Nunca perde uma oportunidade de lembrar-nos que a soberba é pecado.

A resposta correta é:

Se eu vir.

Sim.

“Vir”.

E aqui começa o pequeno thriller linguístico.

Porque o verbo é:

ver

Mas no futuro do conjuntivo transforma-se em:

quando eu vir

se eu vir

logo que eu vir

E é neste momento que metade da população lusófona sente um ligeiro tremor existencial.

Porque o cérebro protesta:

“Mas o verbo não era ver?”

Era.

Continua a ser.

Só que os verbos portugueses possuem hábitos estranhos.

São criaturas livres.

Independentes.

Temperamentais.

Recusam-se a ser previsíveis.

Tomemos o presente do indicativo:

Eu vejo.

Tu vês.

Ele vê.

Tudo normal.

Civilização.

Democracia verbal.

Mas depois chega o futuro do conjuntivo e o verbo decide mudar de roupa:

Se eu vir.

Se tu vires.

Se ele vir.

E todos fingimos que isto é perfeitamente razoável.

Não é.

Mas é bonito.

Aliás, os verbos portugueses têm uma característica profundamente humana:

mudam de comportamento conforme o contexto.

Exatamente como pessoas.

Há indivíduos adoráveis em festas e insuportáveis em reuniões de condomínio.

Os verbos fazem o mesmo.

O verbo ver é um exemplo clássico.

Mas não está sozinho.

Tem cúmplices.

Observemos o verbo vir:

Se eu vier.

Naturalmente.

Porque a língua portuguesa acordou um dia e decidiu que:

  • ver → vir
  • vir → vier

Há uma elegância quase barroca neste sistema.

E também um leve desejo de vingança.

Imagino o diálogo entre os verbos:

Ver:

No futuro do conjuntivo passo a “vir”.

Vir:

Eu passo a “vier”.

Falante:

Isto não faz sentido.

Gramática:

Faz. Estuda mais.

E o mais extraordinário é que os erros costumam soar plausíveis.

É por isso que tantas pessoas escrevem:

“Se eu ver o documento, envio-o.”

Compreensível?

Perfeitamente.

Correto?

Infelizmente, não.

Porque em português europeu cuidado devemos escrever:

Se eu vir o documento, envio-o.

Do mesmo modo:

Quando eu vir a professora, entrego-lhe o trabalho.

Se eu vir o autocarro, corro.

Embora, sejamos honestos, depois dos quarenta correr atrás de autocarros já é uma negociação ortopédica.

Mas há uma forma elegante de memorizar isto.

O futuro do conjuntivo do verbo ver vem do pretérito perfeito:

eu vi

Daí:

se eu vir.

É quase como se a língua dissesse:

“Já viste? Então poderás vir a ver.”

Não ajuda muito.

Mas é poético.

E a gramática portuguesa aprecia poesia.

Às vezes até em excesso.

No fundo, aprender verbos é aceitar uma verdade fundamental da existência:

há regras.

Há exceções.

E depois há os verbos, que vivem numa dimensão própria, governada por leis que parecem ter sido escritas por um poeta medieval com muito tempo livre.

Por isso, da próxima vez que hesitar entre:

“se eu ver”

ou

“se eu vir”,

escolha:

se eu vir.

Porque, na língua portuguesa, ver é difícil.

Mas conjugar é ainda mais.

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