"Porque Razão “Há Cinco Anos Atrás” Faz a Gramática Revirar os Olhos"

A língua portuguesa é uma senhora elegante.

Exigente.

Ligeiramente dramática.

E, como muitas senhoras elegantes, possui tolerância limitada para redundâncias.

É por isso que certas expressões provocam na gramática a mesma reação que um historiador sentiria ao ouvir alguém dizer:

“No tempo dos dinossauros, quando ainda não havia Internet.”

Uma dessas expressões é a célebre:

“Há cinco anos atrás.”

Toda a gente já a disse.

Toda a gente já a escreveu.

Metade do país usa-a diariamente.

A outra metade corrige-a.

E depois deixam de se falar no Natal.

Mas afinal, qual é o problema?

O problema é que a frase já vem com passado incorporado.

O verbo haver, quando indica tempo decorrido, já significa:

“faz” ou “decorreu desde”.

Por exemplo:

Moro aqui há dez anos.

Perfeito.

A frase informa que passaram dez anos.

A missão está cumprida.

A gramática está calma.

Os linguistas conseguem dormir.

Mas então surge alguém e acrescenta:

Moro aqui há dez anos atrás.

E é aqui que a língua portuguesa suspira profundamente.

Porque “atrás” já indica passado.

E “há”, neste contexto, também.

É como dizer:

“Subir para cima.”

“Entrar para dentro.”

“Sair para fora.”

“Descer para baixo.”

Frases perfeitamente compreensíveis.

Mas semanticamente redundantes.

São a versão linguística de vestir dois relógios no mesmo pulso para confirmar que são três da tarde.

Vejamos:

Conheci-a há vinte anos.

Correto.

Elegante.

Eficiente.

Agora:

Conheci-a há vinte anos atrás.

A frase continua a ser entendida.

Ninguém chama a polícia gramatical.

Mas a construção repete a mesma informação.

É como anunciar:

“Tenho uma surpresa inesperada.”

Se é surpresa, já é inesperada.

A menos que trabalhe nas Finanças.

Aí talvez seja prudente desconfiar.

A questão interessante é que a língua está cheia destas pequenas duplicações.

O ser humano gosta delas.

Porque o cérebro aprecia reforço.

É por isso que também ouvimos:

“Planeamento prévio.”

Como se alguém organizasse eventos retroativamente.

Ou:

“Consenso geral.”

Como se existisse consenso individual.

Um consenso individual chama-se opinião.

E uma pessoa sozinha a concordar consigo própria chama-se terça-feira à tarde.

Mas voltemos ao nosso velho amigo “há”.

Este pequeno verbo vive uma vida difícil.

Além de existir, também mede tempo.

Trabalha muito.

Recebe pouco reconhecimento.

E ainda tem de suportar “atrás” a repetir-lhe o trabalho.

Imaginem o diálogo:

Há:

Eu trato do passado.

Atrás:

Eu também.

Há:

Mas eu já tratei disso.

Atrás:

Sim, mas vim confirmar.

Há:

Ninguém te pediu confirmação.

No fundo, “há cinco anos atrás” é a versão gramatical daquela pessoa que repete tudo numa reunião para parecer que participou.

A informação já estava lá.

Ela apenas chegou depois e disse:

“Concordo e acrescento exatamente a mesma coisa.”

Por isso, em português, prefira:

Vivi no Porto há cinco anos.

ou

Vivi no Porto cinco anos atrás.

As duas construções estão corretas.

O que normalmente evitamos é juntar ambas:

Há cinco anos atrás.

Porque, linguisticamente, é como contratar duas pessoas para o mesmo cargo e descobrir que ambas trazem exatamente o mesmo relatório.

A gramática portuguesa é assim.

Não exige perfeição absoluta.

Mas aprecia elegância.

E elegância, na língua como na vida, consiste muitas vezes em saber quando parar de acrescentar coisas que já lá estavam.

Especialmente palavras.

E opiniões em grupos de WhatsApp.

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