"A senhora das calças azuis"
Há dias que parecem escritos por um argumentista com um sentido de humor particularmente refinado. Hoje foi um deles. A realidade, quando decide superar a ficção, fá-lo sem pedir autorização nem desculpa.
A manhã começou da melhor forma possível: um café com uma amiga inestimável. Daquelas amizades que não se medem pelo tempo, mas pela tranquilidade que nos oferecem. Estávamos sentadas quando uma senhora se aproximou e perguntou:
— Já pagou o café?
Respondi que não.
Ela sorriu e disse:
— Então deixe estar. Hoje pago eu. Mas olhe... a senhora de calças azuis que está lá fora está a deitar fogo pelos olhos e não para de olhar para si.
Olhei.
E há imagens que entram na nossa retina contra a nossa vontade e recusam terminantemente sair. Há coisas que simplesmente não se conseguem "desver".
A minha amiga desatou a rir às gargalhadas.
A senhora explicou-nos que conhecia muito bem aquela mulher e que não lhe tinha qualquer simpatia. Agradeci-lhe o gesto, não apenas pelo café, mas pela delicadeza. Quanto à senhora das calças azuis... para mim, era uma completa desconhecida. Aliás, tão desconhecida que, terminado aquele momento, voltou imediatamente ao lugar onde sempre esteve: absolutamente irrelevante. Há pessoas que passam a vida convencidas de que ocupam um lugar central na narrativa dos outros, quando, na verdade, nunca chegaram sequer ao índice.
A psicologia social explica este fenómeno com relativa facilidade. Projectamos nos outros conflitos que pertencem exclusivamente ao nosso mundo interior. A filosofia diria que ninguém nos pode ofender sem o nosso consentimento. Eu, mais modestamente, limito-me a pensar que a paz de espírito continua a ser um excelente investimento.
Fui buscar o meu filho para a piscina e, pouco depois, encontrei outra amiga. Entre tintas, pincéis, ideias para pinturas e conversas sobre os nossos serviços, os miúdos divertiam-se na piscina enquanto nós fazíamos aquilo que as boas amizades sabem fazer: conversar sem relógio.
De repente, ela olhou para mim e disse:
— Vai buscar o fato de banho. Vamos dar um mergulho à Praia da Boa Vista.
E fomos.
A Praia da Boa Vista, na Costa da Caparica, tem qualquer coisa de terapêutico. O extenso areal dourado parece dissolver as preocupações ao ritmo das ondas. O Atlântico, ora sereno, ora indomável, recorda-nos que a natureza não precisa de pedir licença para ser grandiosa. Há um silêncio peculiar naquela paisagem, mesmo quando está cheia de gente. Talvez porque o mar tenha esse estranho talento de colocar o ego humano na dimensão certa.
Depois do mergulho fomos ao McDonald's.
Estávamos sentadas, a rir de mais um dos episódios caricatos do dia, quando um senhor, aparentemente convencido de que possuía um talento extraordinário para a comédia, decidiu partilhar connosco a sua mais brilhante reflexão:
— Eu gosto de chupar amêijoa... de preferência com cabelo.
Fez-se um pequeno silêncio.
Confesso que ainda procurei, durante alguns segundos, uma possível metáfora escondida. Talvez um exercício linguístico sofisticado. Talvez ironia. Talvez surrealismo.
Não.
Era apenas mau gosto embrulhado numa analogia patética.
Há uma enorme diferença entre provocar e ser simplesmente grosseiro. A inteligência utiliza o humor para iluminar a realidade; a vulgaridade utiliza-o para confirmar a pobreza do pensamento.
Pessoalmente, não aprecio pelos... muito menos na comida. Mas isso já pertence ao domínio da higiene, não da filosofia.
Freud teria certamente uma teoria. Lacan complicá-la-ia ao ponto de ninguém perceber rigorosamente nada. Eu limitei-me a continuar a comer as minhas batatas.
Mais tarde abri o meu blogue.
Mais de mil visualizações.
Sorri.
Escrever continua a ser uma das poucas actividades em que o silêncio consegue produzir companhia. Há qualquer coisa de profundamente humano em descobrir que pessoas que nunca vimos dedicam alguns minutos do seu tempo às nossas palavras.
Tirámos uma fotografia — eu, a minha amiga e o meu filho. Gosto de guardar momentos, mas gosto ainda mais de os partilhar. Não por necessidade de aprovação, mas porque a felicidade, quando é verdadeira, raramente é egoísta.
Depois abri o Facebook.
E foi aí que o argumento decidiu abandonar definitivamente qualquer compromisso com a lógica.
Recebi uma mensagem do meu sogro.
Há apenas um pequeno pormenor.
O meu sogro faleceu.
Não é a primeira vez que recebo mensagens do além. Mas, desta vez, o fenómeno paranormal apresentava uma particularidade interessante: fotografia de perfil, histórico de conversas e actividade recente.
Durante alguns segundos questionei seriamente se o meu telemóvel precisaria de um padre em vez de um técnico informático.
Talvez o meu sogro continuasse a gostar tanto das minhas publicações que tivesse decidido desafiar a biologia, a metafísica e os algoritmos do Facebook.
Infelizmente, a explicação mais plausível é também a mais perturbadora.
Alguém utiliza o perfil de uma pessoa falecida para espreitar a vida dos outros.
E é aqui que o humor termina.
Há um momento em que a curiosidade deixa de ser humana e passa a ser patológica. Há uma fronteira muito ténue entre o interesse e a obsessão, entre a memória e a profanação.
A sociologia ensina-nos que as redes sociais alteraram profundamente a forma como vivemos o luto. A psicologia explica-nos os mecanismos da compulsão e da vigilância. A psicanálise talvez procurasse desejos inconscientes por detrás de comportamentos aparentemente inexplicáveis.
Eu fico-me por uma conclusão muito mais simples.
Há pessoas que fazem da própria vida uma obra suficientemente interessante para não precisarem de viver a dos outros.
E depois há quem utilize o perfil de um morto para satisfazer uma curiosidade doentia.
Não consigo decidir o que é mais triste: a falta de respeito por quem partiu ou a incapacidade de construir uma existência suficientemente rica para dispensar a espionagem emocional.
No entanto, talvez tenha sido precisamente esse o verdadeiro tema do meu dia.
Enquanto umas pessoas me ofereciam um café sem me conhecerem, outras ofereciam-me um sorriso, uma amizade, um mergulho inesperado, uma conversa inteligente e o riso genuíno de uma criança.
Outras, pelo contrário, ofereciam apenas ressentimento, vulgaridade ou morbidez.
É curioso como todos respiramos o mesmo oxigénio e, ainda assim, alguns escolhem viver a distribuir luz enquanto outros parecem especializados em fabricar sombras.
No fim do dia, fiquei com uma certeza.
A vida continua a compensar infinitamente mais quando escolhemos sentar-nos à mesa com quem sabe rir connosco, do que perder um único segundo a tentar compreender quem nunca aprendeu a sorrir para si próprio.
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