"Como é: “Ao Encontro de” ou “De Encontro a”: Como Uma Pequena Preposição Pode Arruinar Acordos de Paz"
A língua portuguesa é extraordinária.
Consegue transformar uma única preposição num desastre diplomático.
Porque há expressões que parecem sinónimas, vivem lado a lado, frequentam as mesmas frases e até se vestem de maneira semelhante — mas, no fundo, querem exactamente o contrário uma da outra.
É o caso destas duas criaturas gramaticais:
ao encontro de
de encontro a
À primeira vista parecem irmãs.
Na realidade, são rivais.
Quase inimigas.
A diferença é tão grande que trocar uma pela outra é o equivalente linguístico a confundir:
- casamento com divórcio;
- remédio com veneno;
- ou uma reunião produtiva com uma reunião que podia ter sido um e-mail.
Comecemos pela mais simpática.
Ir ao encontro de
Esta expressão indica aproximação, concordância, satisfação ou harmonia.
Quando algo vai ao encontro de outra coisa, aproxima-se dela de forma positiva.
Exemplos:
A proposta vai ao encontro das necessidades dos trabalhadores.
Excelente.
Há entendimento.
Civilização.
Estado de direito.
Ninguém precisou de chamar advogados.
Outro exemplo:
As medidas vão ao encontro das expectativas da população.
Maravilhoso.
A população continua descontente — porque é uma tradição nacional — mas, pelo menos gramaticalmente, há convergência.
Agora entra em cena a expressão mais belicosa:
Ir de encontro a
Aqui a conversa muda de tom.
Porque de encontro a significa choque, oposição, colisão.
Não é aproximação.
É impacto.
É desacordo.
É uma ideia a entrar pela outra dentro como um carrinho de supermercado sem travões.
Exemplo:
A decisão vai de encontro aos princípios da instituição.
Ou seja:
contradiz.
colide.
entra em conflito.
Não vai ao encontro.
Vai contra.
É quase possível ouvir a pancada.
E, no entanto, milhares de frases inocentes circulam por aí todos os dias dizendo exactamente o contrário do que pretendem.
Lemos frequentemente coisas como:
“A nova política vai de encontro às expectativas dos cidadãos.”
E aqui a gramática entra em estado de alerta.
Porque, traduzido à letra, isto significa que a política acabou de atropelar as expectativas dos cidadãos num cruzamento sem visibilidade.
Talvez seja realista.
Mas raramente é essa a intenção do autor.
A língua portuguesa tem este humor subtil.
Às vezes basta uma preposição para transformar cooperação em confronto.
Uma sílaba.
Duas letras.
Um pequeno “de”.
E a frase deixa de dar um abraço para começar uma discussão.
É fascinante.
As preposições são as diplomatas da gramática.
Trabalham discretamente.
Recebem pouco reconhecimento.
Mas quando falham, o conflito instala-se.
São como técnicos de informática.
Só nos lembramos deles quando tudo arde.
Imaginemos um diálogo entre as duas expressões:
Ao encontro de:
Aproximo pessoas.
De encontro a:
Eu aproximo-as também.
Ao encontro de:
Em harmonia?
De encontro a:
A alta velocidade.
E é esta a beleza da língua portuguesa.
Nada é totalmente inocente.
Nem sequer as preposições.
Vivem pequenas vidas silenciosas no meio das frases e, de vez em quando, mudam completamente o sentido do mundo.
Por isso, da próxima vez que escrever:
“A proposta vai ao encontro das necessidades dos cidadãos.”
a gramática sorrirá discretamente.
Mas se escrever:
“A proposta vai de encontro às necessidades dos cidadãos.”
prepare-se.
Porque, nesse caso, as necessidades acabaram de sofrer um acidente linguístico.
E não há seguro contra isso.
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