"Vem. Caminhemos Um Pouco."
Escuta-me.
Por favor.
Antes de acreditares em tudo aquilo que disseram sobre ti, senta-te um instante ao meu lado.
Respira.
Há verdades que só se conseguem ouvir quando o ruído do mundo abranda.
Tu não és a opinião que alguém formulou num momento de irritação.
Não és a crítica de quem nunca conheceu verdadeiramente a tua história.
Não és o rótulo que decidiram colocar-te porque os rótulos exigem menos esforço do que compreender uma pessoa.
Também não és o teu pior dia.
Nem o teu maior erro.
Nem a tua maior perda.
Nem aquele momento em que a vida te encontrou sem forças para responder.
Uma existência inteira não pode ser resumida ao capítulo em que alguém decidiu fechar o livro.
Tu és muito mais complexa do que qualquer definição.
És feita de contradições.
De luz e de sombra.
De coragem e de medo.
De inteligência e de dúvida.
De firmeza e de fragilidade.
És, simultaneamente, aquilo que foste, aquilo que és e tudo aquilo que ainda tens possibilidade de vir a ser.
Nenhum conceito suficientemente sério sobre a condição humana alguma vez conseguiu reduzir uma pessoa a uma única característica.
Porque o ser humano não é uma fotografia.
É um processo.
Não é um estado.
É um movimento.
Não é uma conclusão.
É uma construção permanente.
Talvez seja precisamente essa a maior beleza da existência.
Nunca estamos completamente terminados.
Há sempre alguma parte de nós a aprender, outra a desaprender e outra ainda à espera de ser finalmente compreendida.
Por isso, vem.
Caminhemos um pouco.
Sem pressa.
Há conversas que só acontecem quando os pés acompanham o pensamento.
Diz-me.
O que é que verdadeiramente te entristece?
Não aquilo que respondes por educação.
Nem aquilo que aprendeste a dizer para tranquilizar os outros.
Quero saber o que pesa quando fechas a porta de casa.
O que permanece quando toda a gente vai embora.
O que continua a doer mesmo depois de dizeres que já passou.
Conta-me.
O que te rouba a paz?
É uma ausência?
Uma culpa?
Uma desilusão?
Um sonho que nunca nasceu?
Uma palavra que nunca ouviste?
Ou talvez uma palavra que jamais esqueceste?
Sabes, passamos demasiado tempo a esconder as nossas feridas como se a vulnerabilidade diminuísse a nossa dignidade.
Quando, na verdade, é exactamente o contrário.
Só quem aceita olhar para dentro consegue deixar de fugir de si próprio.
A coragem raramente faz barulho.
Na maioria das vezes, limita-se a permanecer sentada diante da própria dor sem mudar de assunto.
Não tenhas medo de me contar.
Nem de te contar.
Porque aquilo que permanece escondido governa-nos em silêncio.
Aquilo que encontra linguagem começa, lentamente, a perder o poder de nos aprisionar.
E se, por agora, não conseguires explicar tudo, não faz mal.
Nem todas as dores chegam primeiro às palavras.
Algumas chegam em lágrimas.
Outras em silêncio.
Outras ainda naquele cansaço que ninguém vê, mas que pesa mais do que qualquer corpo consegue transportar.
Eu fico.
Não para resolver a tua vida.
Nem para te oferecer respostas simplistas.
Fico porque, às vezes, a maior forma de cuidado não consiste em indicar o caminho.
Consiste apenas em caminhar ao lado.
Até que a pessoa volte a acreditar que consegue continuar.
E quero que nunca te esqueças de uma coisa.
Mesmo quando te sentires perdida, continuas inteira.
Mesmo quando duvidares do teu valor, continuas digna.
Mesmo quando o espelho te mostrar apenas as cicatrizes, continuas infinitamente maior do que aquilo que te aconteceu.
As feridas contam uma história.
Não escrevem a identidade.
A dor explica um capítulo.
Não define uma biografia.
Por isso, continua.
Devagar, se for preciso.
Pára, se tiver de ser.
Chora, se o corpo pedir.
Ri, quando o coração voltar a lembrar-se como se faz.
Mas não desistas de ti.
Porque o mundo já tem demasiadas pessoas que aprenderam a sobreviver.
O que verdadeiramente faz falta são pessoas que, depois de tudo, ainda escolhem viver.
E eu acredito, profundamente, que essa pessoa continua aí.
Talvez cansada.
Talvez silenciosa.
Talvez escondida.
Mas continua aí.
Vem.
Ainda temos muito caminho para fazer.
E, desta vez, não precisas de o percorrer sozinha.
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Nota da autora
Há textos que nascem de uma ideia.
Outros de uma memória.
E existem aqueles que chegam sem aviso, como se já estivessem escritos algures dentro de nós muito antes de encontrarem papel.
Foi isso que aconteceu hoje.
É difícil explicar. Não estava a pensar escrever este texto. Não o tinha planeado, nem andava a construir-lhe a estrutura. Acordei com ele. Melhor dizendo, acordei a senti-lo. Como se o meu coração e a minha alma me pedissem, com uma serenidade impossível de ignorar: escreve-o agora.
Obedeci.
Foi uma sensação estranha, mas profundamente pacífica.
Enquanto escrevia, tive a impressão de que não estava apenas a escolher palavras. Estava a escutar algo que já existia dentro de mim e que, finalmente, encontrava linguagem.
Não escrevi para ensinar ninguém.
Também não escrevi porque acredito ter respostas para as dores dos outros.
Escrevi porque, ao longo da vida, descobri que há momentos em que todos precisamos que alguém nos diga, com absoluta simplicidade: vem, senta-te um pouco, eu caminho contigo.
Talvez esse alguém sejamos nós próprios.
Talvez seja um amigo.
Talvez seja uma página.
Talvez seja um texto encontrado por acaso, exatamente no dia em que fazia falta.
Se este texto conseguir fazer companhia a uma única pessoa durante alguns minutos; se conseguir recordar alguém de que continua inteira apesar das cicatrizes; se conseguir aliviar, ainda que por instantes, o peso de uma consciência cansada... então já cumpriu o seu propósito.
Porque há palavras que não foram escritas para impressionar.
Foram escritas para permanecer ao lado de alguém até que volte a acreditar em si.
E, curiosamente, hoje fui a primeira pessoa que precisou de as ler.
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