"Não Foi a Paixão Que Me Desarmou. Foi a Forma Como Ele Ainda Sabia Ler o Meu Silêncio."

 Quando o meu filho saiu para a piscina, a casa mudou de respiração.

Nunca acreditei que as paredes fossem apenas paredes. Há silêncios que alteram a temperatura das divisões e há ausências que deixam espaço para que duas pessoas se reencontrem sem o ruído do mundo.

Mal fechei a porta, senti-o aproximar-se.

Não ouvi passos. Reconheci-o pela forma como a minha própria respiração desacelerou.

As mãos pousaram nos meus braços com uma firmeza tranquila. Virou-me de costas e fiquei diante da parede branca da entrada, onde a luz da tarde desenhava pequenas manchas douradas. Durante um instante ninguém falou.

Sorri.

Talvez porque soubesse que o desejo não começa quando alguém nos toca. Começa muito antes, na memória acumulada de todos os outros dias, nas conversas interrompidas, nas mãos que se cruzam na cozinha, nos olhares cúmplices enquanto o jantar fica pronto, na intimidade construída pela repetição de uma vida inteira.

Aproximei o rosto da parede e fechei os olhos.

Senti-o ainda mais perto.

A proximidade dele tinha sempre um efeito estranho sobre mim. O pensamento deixava de organizar frases e transformava-se numa sucessão de imagens, recordações e sensações que se misturavam até perderem qualquer fronteira.

No meu ouvido, quase confundida com a respiração, chegou uma pergunta.

— Queres que pare?

Sorri outra vez.

Não respondi logo.

Gostava daquela pausa. Daquele espaço onde a liberdade existe precisamente porque ninguém a retira. Onde permanecer é uma escolha consciente e não um impulso.

Acabei por murmurar um simples "não".

Nunca uma palavra tão pequena me pareceu tão completa.

As mãos dele continuaram o seu percurso lento, sem pressa, como quem relê um livro favorito sabendo que o prazer está tanto na história como na demora. Descobri que o corpo também possui memória: reconhece um gesto antes da razão, identifica uma presença antes do olhar, entrega-se à confiança antes de qualquer explicação.

Lá fora, um carro passou na rua.

Algures, uma criança riu.

A cidade continuava a existir.

Mas dentro daquela casa o tempo deixara de obedecer aos relógios.

Sempre achei curioso que o ser humano passe a vida inteira dividido entre aquilo que mostra e aquilo que sente. A sociedade ensina-nos a controlar emoções, a cumprir horários, a desempenhar papéis. No entanto, existem momentos em que todas essas camadas caem em silêncio e resta apenas a verdade simples de dois adultos que continuam a escolher-se.

Foi isso que aconteceu.

O mundo tornou-se uma sucessão de respirações sincronizadas, de silêncio partilhado, de confiança absoluta. A luz deslocou-se lentamente pela parede, desenhando novos contornos no chão, enquanto dentro de mim tudo parecia acontecer em ondas sucessivas, profundas, inesperadas, impossíveis de contar.

Perdi a noção dos minutos.

Quando finalmente abri os olhos, o sol tinha mudado de lugar e havia em mim uma serenidade intensa, como a do mar depois de uma maré cheia. Senti-me simultaneamente leve e inteira, habitada por uma felicidade discreta que não precisava de palavras para existir.

Encostei a cabeça ao ombro dele.

Pensei que talvez o amor adulto seja isto: uma inteligência feita de pele e de memória, uma filosofia silenciosa onde o desejo não se opõe à ternura, antes cresce dentro dela; uma biologia iluminada pela cultura, uma aprendizagem constante da confiança, uma sociologia privada onde dois seres suspendem todas as regras do exterior para criarem, durante um breve intervalo, uma linguagem exclusivamente sua.

Ficámos assim, imóveis.

O relógio voltou a impor a sua ordem.

Dentro de mim, porém, o tempo continuava suspenso, repetindo em círculos invisíveis aquela rara sensação de plenitude que não se mede em minutos, mas na intensidade tranquila com que uma alma reconhece a outra e regressa, finalmente, a casa.

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