“A Armadilha Linguística de ‘Haja’ e ‘Ajam’ Explicada Sem Complicações”
A língua portuguesa possui um talento raro.
Consegue transformar palavras perfeitamente inocentes em armadilhas linguísticas de elevada complexidade.
Uma dessas armadilhas chama-se:
haja
Há pessoas cultíssimas que escrevem artigos académicos impecáveis, citam filósofos alemães sem pestanejar e conseguem explicar a teoria da relatividade a adolescentes.
Mas colocam-lhes à frente uma frase com “haja” e observa-se imediatamente um fenómeno neurológico interessante:
o olhar perde foco.
A alma abandona temporariamente o corpo.
E o cérebro sussurra:
“Isto escreve-se mesmo assim?”
Escreve.
E pior: costuma estar correto.
Comecemos pelo essencial.
O verbo haver é um dos grandes aristocratas da língua portuguesa.
Antigo.
Influente.
Ligeiramente excêntrico.
E com hábitos gramaticais próprios.
Quando o verbo haver significa existir, é impessoal.
E quando um verbo é impessoal, acontece algo que perturba profundamente o espírito humano:
fica no singular.
Sempre.
Mesmo quando fala de muitas coisas.
Exemplos:
Há problemas.
Havia dúvidas.
Houve manifestações.
Haverá mudanças.
Reparem na elegância da tirania gramatical.
Os substantivos multiplicam-se:
- problemas;
- dúvidas;
- manifestações;
- mudanças.
Mas o verbo permanece serenamente no singular, como um monarca constitucional da sintaxe.
A língua portuguesa olha para a multidão e declara:
“Muito bem, sejam quantos forem. O verbo não se mexe.”
É por isso que a frase:
Haviam muitas pessoas na sala.
soa tão natural a tantos falantes.
E, ainda assim, em português europeu cuidado, está incorreta.
O correto é:
Havia muitas pessoas na sala.
Porque não estamos a dizer que as pessoas “haviam”.
Estamos a dizer que existiam.
E “haver”, com sentido de existir, recusa obstinadamente o plural.
É o equivalente verbal daquela pessoa no escritório que responde:
“Eu trabalho sozinho.”
Mesmo estando rodeada por quarenta colegas.
Mas a história complica-se quando entra em cena o misterioso:
haja
Porque “haja” pertence ao presente do conjuntivo do verbo haver.
E surge em frases como:
Haja paciência.
Haja saúde.
Haja bom senso.
Expressões profundamente portuguesas.
Sobretudo “haja paciência”, que funciona simultaneamente como desabafo, oração, filosofia de vida e diagnóstico social.
Quando alguém diz:
“Haja paciência.”
não está verdadeiramente a pedir paciência.
Está a comunicar:
“A espécie humana voltou a dececionar-me.”
É uma frase extraordinária.
Consegue condensar séculos de fadiga civilizacional em duas palavras.
Mas voltemos à gramática.
Porque há quem escreva:
“Ajam paciência.”
E aqui entramos numa zona perigosa.
Porque ajam existe.
Mas pertence a outro verbo:
agir
Por exemplo:
Espero que ajam com prudência.
Perfeito.
Aqui estamos a pedir que várias pessoas atuem de forma prudente.
Civilização.
Lógica.
Coerência.
Mas em:
Haja paciência.
não estamos a pedir ação.
Estamos a desejar a existência metafísica de uma reserva estratégica de tolerância humana.
E isso é trabalho do verbo haver.
Aliás, imaginemos o diálogo:
Haja:
Eu expresso desejo ou existência.
Ajam:
Eu expresso ação.
Falante:
Parecem iguais.
Gramática:
Não.
Falante:
Mas soam parecidos.
Gramática:
Também “concerto” e “conserto” soam iguais. E no entanto ninguém quer um pianista a reparar canalizações.
A língua portuguesa é assim.
Cruel?
Às vezes.
Elegante?
Quase sempre.
Perdoa distrações?
Raramente.
No fundo, aprender gramática é aceitar uma verdade fundamental da existência:
nem tudo o que parece igual é igual.
Há palavras gémeas.
Há verbos temperamentais.
E há falantes que, depois de um longo dia de trabalho, olham para “haja” durante trinta segundos e concluem:
“Vou reformular a frase.”
O que, convenhamos, é talvez o mais português dos mecanismos de sobrevivência linguística.
Por isso, lembre-se:
Haja paciência.
Porque “ajam paciência”, além de estar errado, sugere que a paciência decidiu levantar-se do sofá e começar finalmente a trabalhar.
E sejamos honestos:
se a paciência realmente agisse, o mundo seria outro.
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