"O Correio da Vida Tem Péssimo Serviço de Triagem"

Há uma característica particularmente irritante na existência humana: ninguém recebe exactamente aquilo que encomendou.

A vida tem muitos talentos, mas a logística não parece ser um deles.

Pedimos compreensão e recebemos críticas.

Procuramos presença e encontramos ausências.

Oferecemos confiança e, ocasionalmente, recebemos decepções embrulhadas em papel de cortesia.

Há dias em que parece que o Universo contratou a empresa errada para gerir as entregas.

E, no entanto, existe uma verdade simples que os anos me ensinaram: raramente escolhemos aquilo que nos chega às mãos, mas escolhemos quase sempre aquilo que decidimos colocar nelas antes de as estender aos outros.

Não controlamos todas as circunstâncias.

Não controlamos todas as pessoas.

Não controlamos todas as perdas, injustiças ou desilusões.

Aliás, se alguém descobrir como controlar completamente os seres humanos, agradeço que não me conte. A História demonstra que essas experiências costumam terminar mal.

Mas existe um território que continua a pertencer-nos.

A forma como respondemos.

E é aí que começa a verdadeira medida de uma pessoa.

Porque a elegância moral não consiste em ser gentil quando tudo corre bem.

Isso é relativamente simples.

A verdadeira prova acontece quando a vida nos oferece motivos para endurecer e, mesmo assim, escolhemos não nos transformar naquilo que nos feriu.

Essa é uma forma de coragem raramente celebrada.

Receber amargura e não a distribuir.

Receber indiferença e não a reproduzir.

Receber injustiça e recusar fazer dela uma filosofia de vida.

Existe uma força silenciosa nesse gesto.

Uma força que não faz barulho, não procura aplausos e raramente se torna notícia.

Mas transforma pessoas.

E transforma destinos.

Ao longo da vida percebi que aquilo que entregamos ao mundo revela muito mais sobre nós do que aquilo que recebemos dele.

O que recebemos depende de inúmeras circunstâncias.

O que oferecemos depende, em larga medida, do nosso carácter.

Por isso, quando possível, procuro entregar respeito.

Nem sempre porque os outros o mereçam.

Muitas vezes porque eu não quero perder a capacidade de o oferecer.

Procuro entregar empatia.

Não porque compreenda tudo.

Mas porque sei o que significa não ser compreendida.

Procuro entregar dignidade.

Não porque seja fácil.

Mas porque a alternativa raramente produz bons resultados.

No fundo, todos deixamos rastos.

Alguns deixam ruído.

Outros deixam feridas.

Outros ainda deixam luz.

E embora não possamos escolher tudo o que encontramos pelo caminho, podemos escolher aquilo que deixamos nele.

Talvez seja essa uma das formas mais discretas de liberdade.

A possibilidade de decidir quem ser, independentemente das circunstâncias.

A possibilidade de não permitir que a dureza do mundo determine a qualidade da nossa alma.

Por isso, hoje deixo um desejo simples.

Que possas cultivar bons pensamentos quando os pensamentos negativos parecerem mais fáceis.

Que possas escolher palavras gentis quando a impaciência pedir a palavra.

Que possas oferecer humanidade num tempo que, por vezes, parece esquecer-se dela.

E que nunca te falte a lucidez para compreender uma verdade fundamental:

o mundo nem sempre nos devolve aquilo que lhe damos.

Mas nós tornamo-nos, inevitavelmente, aquilo que escolhemos dar ao mundo.

Por isso, entrega amor.

Entrega respeito.

Entrega consciência.

Entrega bondade.

Entrega aquilo que gostarias sinceramente de encontrar quando a vida voltar a bater à tua porta.

Porque há presentes que não mudam o mundo inteiro.

Mas mudam, silenciosamente, quem os oferece

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