"Quem Decide o Que Cada Um Merece?"
Hoje alguém disse uma frase que atravessa os séculos com uma convicção quase inabalável:
— Todos temos o que merecemos.
Respondi, quase sem pensar:
— Não quero saber.
A pessoa insistiu.
— Ela só faz chorar. Está sempre cansada.
E foi nesse instante que percebi que a minha reação não era a que normalmente se espera.
Não senti satisfação.
Não senti justiça.
Não senti sequer aquela pequena vaidade que, por vezes, acompanha a ideia de que a vida acabou por colocar tudo no seu devido lugar.
Senti tristeza.
Uma tristeza difícil de explicar.
Porque imediatamente me ocorreu outra pergunta.
Quem sabe, verdadeiramente, o que cada um merece?
Quem recebeu essa autoridade?
Quem olha para uma vida inteira e consegue afirmar, com rigor filosófico, psicológico ou simplesmente humano, que determinado sofrimento é justo?
Quem decide que uma pessoa merece chorar?
Quem estabelece que o cansaço é uma sentença adequada?
Quem mede as dores, pesa as culpas e distribui as consequências como se a existência fosse um tribunal perfeitamente organizado?
A experiência diz-me exatamente o contrário.
A vida nunca foi um sistema de contabilidade moral.
Há pessoas extraordinariamente boas que atravessam perdas inimagináveis.
Há pessoas profundamente desonestas que vivem décadas de aparente tranquilidade.
Há crianças que sofrem antes de aprender a falar.
Há idosos que morrem sozinhos depois de uma vida inteira a cuidar dos outros.
Se a vida fosse uma equação de mérito, seria muito mais simples compreendê-la.
Mas não é.
Talvez seja precisamente essa complexidade que nos torna tão rápidos a inventar explicações.
Precisamos de acreditar que existe uma lógica absoluta.
Que o bem é sempre recompensado.
Que o mal é sempre castigado.
Que existe uma proporcionalidade invisível que organiza o universo.
É uma ideia reconfortante.
Mas a realidade raramente se deixa reduzir a uma moral de bolso.
Enquanto escutava aquelas palavras, não vi uma mulher a chorar.
Vi outra imagem.
Vi uma mulher a rir.
Lembrei-me dos olhos.
Quando estava verdadeiramente feliz, brilhavam antes mesmo do sorriso aparecer.
Depois vinha a boca.
E, logo a seguir, surgiam aquelas pequenas covinhas no rosto.
Curiosamente iguais às do meu filho.
Era elétrica.
Cheia de movimento.
Sempre com energia.
Sempre com uma velocidade que parecia superior à do resto do mundo.
Por isso, ouvir que agora chora e está cansada não despertou em mim qualquer sensação de vitória.
Apenas uma estranha melancolia.
Gostava sinceramente de ter ouvido outra frase.
"Está feliz."
"Encontrou paz."
"Segue o seu caminho."
Porque eu conheço demasiado bem o peso do sofrimento para desejar que ele faça morada em alguém.
Atravessei o meu próprio inferno.
Conheci desertos onde a esperança parecia uma palavra excessivamente optimista.
Conheci o vazio.
Conheci a sensação de caminhar sem reconhecer o chão.
E sobrevivi.
Não porque alguém tenha sofrido mais do que eu.
Mas porque, lentamente, voltei a construir sentido.
Talvez seja precisamente por isso que hoje não consigo celebrar a dor alheia.
Existe uma forma subtil de maturidade que consiste em abandonar a fantasia da vingança.
Perceber que a reparação nunca acontece quando o outro cai.
Acontece quando nós deixamos de precisar da sua queda.
Além disso, há uma verdade desconfortável que raramente admitimos.
Nunca conhecemos a história inteira de ninguém.
Vemos o comportamento.
Ignoramos as batalhas.
Observamos o sorriso.
Desconhecemos a insónia.
Escutamos o silêncio.
Não ouvimos os pensamentos.
As pessoas transportam biografias invisíveis que nenhum observador consegue ler completamente.
Talvez por isso devêssemos ser mais prudentes quando distribuímos sentenças sobre quem merece o quê.
Porque a fragilidade humana é universal.
Todos erramos.
Todos falhamos.
Todos ferimos alguém, intencionalmente ou não.
Todos carregamos arrependimentos.
Todos somos, em algum momento, a personagem secundária da dor de outra pessoa.
No fundo, talvez exista apenas uma pergunta verdadeiramente importante.
Se o sofrimento fosse distribuído por mérito, quem de nós teria coragem de afirmar que merece apenas felicidade?
E quem teria legitimidade para decidir isso?
Quanto a mim, continuo a preferir outra hipótese.
Que ninguém mereça viver aprisionado na tristeza.
Que ninguém mereça caminhar permanentemente cansado.
Que ninguém mereça perder o brilho dos olhos.
Porque uma sociedade torna-se mais humana não quando aprende a justificar a dor, mas quando deixa de a desejar para quem quer que seja.
E talvez seja esse o maior sinal de liberdade interior:
chegar ao ponto em que já não precisamos que a vida castigue ninguém para finalmente podermos viver em paz.
O que eu desejo, sinceramente, é que um dia ela descubra que ninguém merece viver permanentemente em sofrimento.
Que ninguém merece acordar já cansado.
Que ninguém merece perder o brilho dos olhos, aquele brilho que anuncia esperança antes mesmo de aparecer um sorriso.
Gostava que um dia voltasse a rir até lhe surgirem as covinhas no rosto.
Que encontrasse pessoas que a escutassem antes de a julgarem.
Que aprendesse a descansar sem sentir culpa.
Que voltasse a caminhar depressa, como se o mundo ainda tivesse coisas bonitas para lhe mostrar.
Porque o sofrimento não é um prémio de consolação da vida, nem uma dívida eterna que alguém tenha de pagar.
É apenas uma experiência humana.
E todas as experiências humanas, por mais longas que pareçam, devem poder terminar.
Gostava que percebesse que não precisa de continuar a carregar versões antigas de si própria.
Que pode mudar de ideias.
Mudar de caminho.
Mudar de sonhos.
Mudar de ritmo.
As árvores mais antigas não deixam de ser árvores quando perdem as folhas; apenas se preparam para uma nova estação.
Também os seres humanos têm esse direito.
O direito de recomeçar sem pedir desculpa por isso.
Espero que um dia compreenda que a culpa não é uma identidade.
Que um erro não é uma biografia.
Que uma queda não define um destino.
Que aquilo que fomos nunca tem o poder absoluto de determinar aquilo que ainda podemos ser.
Desejo-lhe conversas leves, silêncios tranquilos e pessoas que lhe façam bem.
Desejo-lhe manhãs em que o corpo não pese tanto.
Desejo-lhe noites em que o pensamento finalmente descanse.
Desejo-lhe a serenidade de quem deixa de lutar contra si próprio.
E, sobretudo, desejo-lhe a liberdade de voltar a sorrir sem desconfiar da felicidade.
Há quem acredite que a justiça consiste em ver o outro sofrer.
Eu prefiro acreditar que a maior justiça é ver alguém crescer.
Há quem espere o castigo.
Eu continuo a esperar a cura.
Porque um coração que encontrou paz não precisa de assistir à guerra de ninguém.
E talvez a forma mais elevada de humanidade seja esta: reconhecer que, apesar de tudo o que aconteceu, continuamos a desejar que o outro encontre aquilo que todos procuramos desde o primeiro dia da nossa existência.
Um lugar onde possa respirar sem medo.
Onde possa ser imperfeito sem ser condenado.
Onde possa ser amado sem precisar de o merecer.
Porque o amor, a paz e a esperança não são recompensas para os irrepreensíveis.
São necessidades fundamentais de todos os seres humanos.
E é por isso que continuo a acreditar, contra todas as lógicas da amargura, que ninguém merece sofrer.
Todos merecemos, pelo menos uma vez, voltar a encontrar o caminho de casa dentro de nós próprios.
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