"Pergunta clássica"
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A gramática tem um talento muito particular: consegue parecer uma disciplina neutra enquanto, na verdade, passa a vida a julgar-nos em silêncio.
Hoje ficamos com essa pequena criatura linguística que parece inocente mas já arruinou mais testes do que fotocópias ilegíveis: os determinantes indefinidos.
Sim, aqueles que vivem naquela zona moralmente cinzenta entre “estou só a apontar” e “estou claramente a insinuar qualquer coisa”.
A pergunta clássica:
“isto é artigo indefinido ou determinante indefinido?”
E a resposta da gramática, com o entusiasmo emocional de um candeeiro de corredor:
“depende.”
Mas não depende assim de forma simpática. Depende como quem diz: devias saber isto.
Os únicos artigos indefinidos são mesmo os pobres, humildes e quase burocráticos:
um, uma, uns, umas.
Não têm opinião. Não têm agenda. Não fazem comentários sociais.
São basicamente a versão linguística de:
“entraram pessoas na sala.”
Fim.
Agora entra o resto do elenco — e aqui a gramática começa a ficar mais interessante, porque aparecem palavras que fingem neutralidade mas não conseguem evitar ser ligeiramente intrometidas:
- certo
- algum
- outro
- vários
- muitos
Estes não são artigos.
São determinantes indefinidos com personalidade.
Ou seja: não apenas apontam, comentam.
E isso, em termos linguísticos, já é quase um escândalo social.
Vamos aos exemplos, que é onde a língua mostra o seu verdadeiro carácter.
O caso de “certo”
Uns certos professores deviam mentir menos.
Aqui não estamos apenas a falar de professores.
Estamos a falar de professores que a frase já decidiu que têm histórico emocional associado.
“Uns” aponta.
“Certos” comenta.
É o equivalente linguístico a:
“não vou dizer nomes, mas toda a gente sabe.”
E repare-se na elegância da agressividade: ninguém é identificado, mas ninguém sai ileso.
O caso de “algum”
Algum aluno terá deixado isto aqui.
“Algum” é a palavra da suspeita educada.
Não acusa.
Não prova.
Mas também não inocenta ninguém.
É o equivalente gramatical de olhar para uma sala vazia e dizer:
“isto não aconteceu sozinho.”
É a gramática a levantar uma sobrancelha.
O caso de “outro”
Outro professor voltou a chegar atrasado.
“Outro” é uma palavra com passado.
Nunca aparece sozinha. Vem sempre com histórico acumulado de impaciência.
Não descreve apenas alguém diferente.
Sugere repetição de desastre.
É o determinante da exaustão institucional.
O caso de “vários”
Vários professores esqueceram-se da reunião.
“Vários” é o início do colapso organizacional.
Se “um” é estatística, “vários” já é problema estrutural.
É a gramática a dizer:
“isto já não é acaso, isto é padrão.”
O caso de “muitos”
Muitos professores discordam.
“Muitos” é quase uma manifestação.
Não descreve quantidade — descreve tensão.
É o momento em que a frase deixa de ser neutra e passa a ser praticamente uma assembleia sindical.
E agora a prova final, aquela que a gramática usa como arma secreta em testes:
Os determinantes indefinidos podem coexistir com artigos indefinidos.
Ou seja, podem aparecer lado a lado como se fossem civilizados, mas na verdade estão a fazer trabalho completamente diferente.
Uns certos professores…
Isto não é redundância.
Isto é engenharia semântica.
“Uns” abre a porta.
“certos” escolhe quem entra e ainda comenta o comportamento à entrada.
Se “certo” fosse artigo, isto seria impossível.
Seria como dizer:
“uma a professora”
o que, além de linguisticamente proibido, soa também a erro administrativo grave.
Conclusão:
A gramática não é apenas regras.
É uma coreografia de intenções.
Os artigos indefinidos são discretos, quase invisíveis.
Os determinantes indefinidos são educados… mas perigosamente opinativos.
E no fundo, quando dizemos:
“uma certa senhora”
não estamos apenas a falar de uma pessoa.
Estamos a dizer:
“há aqui uma senhora… mas eu tenho sentimentos sobre isso.”
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