"O Verdadeiro Boletim de Avaliação"

Hoje fui devolver os livros escolares.

Um gesto aparentemente administrativo, quase burocrático, mas que acabou por se transformar numa reflexão sobre aquilo que realmente significa educar.

Mudei a rotina. Outra vez.

Percebi há muito tempo que as rotinas existem para servir as pessoas e não para as aprisionar. A flexibilidade é uma forma discreta de inteligência: quem sabe adaptar-se preserva a serenidade e poupa energia às guerras desnecessárias.

Passei pelo café mais cedo.

Mostrei as notas do meu filho.

Não pelas classificações de excelência, embora delas me orgulhe.

Confesso, com uma honestidade que talvez faça sorrir alguns pedagogos, que houve uma classificação que me arrancou uma satisfação particularmente divertida: Educação Física.

Depois de tantas conversas, tantas opiniões, tantas previsões quase proféticas sobre aquilo que ele deveria ou não deveria ser, aquela simples positiva pareceu-me possuir um sentido de humor extraordinariamente refinado.

Continuei caminho até à escola.

Entrei.

E, antes de dizer uma única palavra, ouvi uma auxiliar dirigir-se às colegas:

— Sabem quem é esta senhora? É a mãe do Alexandre.

Por um breve instante senti-me deslocada.

Como se tivesse entrado numa história onde todos conheciam uma personagem que eu apenas julgava acompanhar diariamente.

É curioso como a identidade de uma mãe, durante alguns segundos, deixa de ser construída pela profissão, pelos estudos, pelos títulos ou pelas opiniões e passa a resumir-se a uma frase tão simples quanto absoluta:

é a mãe do Alexandre.

Logo depois apareceu a directora de turma.

A minha intenção inicial era cumprir o velho ritual social de quem acredita que passar despercebida é uma competência.

Olhar em frente.

Sorriso discreto.

Silêncio elegante.

Mas há encontros que tornam a invisibilidade impossível.

Cumprimentei.

Recebi um sorriso.

Disse "até para o ano".

E percebi que existem despedidas que transportam muito mais do que um calendário escolar.

Entretanto, as auxiliares continuavam a conversar.

"E tão bom menino."

"Educado."

"Honesto."

"Com tanta empatia."

Nesse instante compreendi que nenhuma classificação que vinha dentro daqueles papéis conseguia competir com aquelas palavras.

Porque as notas avaliam conhecimentos.

Mas o carácter manifesta-se quando ninguém está a preencher uma ficha.

Vivemos numa sociedade fascinada pelo desempenho.

Pergunta-se constantemente quantos valores teve uma criança.

Poucos perguntam quantos valores tem essa criança.

E existe uma diferença filosófica profunda entre ambas as perguntas.

A primeira mede competências.

A segunda mede humanidade.

Uma pode abrir portas.

A outra determina a forma como caminhamos por elas.

A escola ensina a ler, a escrever, a calcular, a interpretar textos e a resolver problemas.

Mas existe uma aprendizagem silenciosa que acontece entre corredores, recreios, filas, pequenos gestos e palavras aparentemente insignificantes.

É aí que se aprende a esperar pela vez.

A respeitar quem limpa uma sala.

A cumprimentar.

A pedir desculpa.

A partilhar.

A reconhecer o outro como igual.

Essas competências não aparecem destacadas nas pautas.

Mas sustentam qualquer sociedade que pretenda continuar a chamar-se civilizada.

Talvez por isso tenha sentido um orgulho tão sereno.

O meu filho não é apenas um conjunto de classificações.

É uma pequena pessoa em construção.

Com espaço para errar.

Com espaço para crescer.

Com espaço para aprender.

Mas, sobretudo, com uma estrutura ética que começa a revelar-se nas coisas pequenas, aquelas que raramente aparecem nas fotografias de final de ano.

Nenhuma auxiliar elogiou a média.

Nenhuma falou dos testes.

Nenhuma referiu percentagens.

Falaram da educação.

Da honestidade.

Da empatia.

Da forma como trata os outros.

E talvez seja esse o elogio mais sofisticado que uma mãe pode receber sem que lhe seja dirigido directamente.

Porque uma criança nunca representa apenas a si própria.

Transporta inevitavelmente fragmentos de todos aqueles que a educaram.

Da família.

Da pequena escola.

Dos professores.

Dos amigos.

Dos afectos.

Das conversas à mesa.

Dos limites.

Dos exemplos.

Dos silêncios.

Nenhum ser humano cresce sozinho.

Somos sempre uma obra colectiva.

Por isso, quando hoje ouvi aquelas palavras, pensei imediatamente em todos os que participam discretamente nesta construção.

Na professora Ana, que compreendeu que ensinar nunca foi apenas transmitir conteúdos, mas reconhecer pessoas antes de formar alunos.

Na escola, que continua a ser um lugar onde o conhecimento encontra a convivência.

E na família, esse primeiro laboratório moral onde uma criança aprende, muito antes das definições, que honestidade é fazer o correcto mesmo quando ninguém está a observar, que respeito não depende da posição social de quem está à nossa frente e que a empatia é talvez a forma mais elevada de inteligência.

No fim do dia trouxe para casa os livros devolvidos, uma pasta com classificações e uma memória inesperada.

As notas ficarão arquivadas.

Daqui a alguns anos ninguém se lembrará da média.

Mas espero que o meu filho continue a ser reconhecido exactamente da mesma maneira.

Não como o rapaz das melhores classificações.

Mas como aquele menino educado, honesto, respeitador e cheio de empatia.

Porque os conhecimentos abrem oportunidades.

Mas são os valores que abrem corações.

E, no fim de todas as aprendizagens, suspeito que esse seja o único legado que verdadeiramente permanece.

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