"Porque Estamos a Correr?"
Hoje acordei cedo.
Antes de qualquer compromisso, antes do ruído das notificações, antes de o mundo reclamar a minha atenção, sentei-me a escrever.
Não procurei respostas.
Procurei perguntas.
E uma delas recusou abandonar-me.
Porque estamos a correr?
Corremos desde o instante em que aprendemos a medir a vida em resultados.
Corremos para terminar cursos.
Corremos para construir carreiras.
Corremos para educar filhos.
Corremos para pagar contas.
Corremos para sermos reconhecidos.
Corremos para não parecermos insuficientes.
Corremos para chegar antes dos outros.
Mas, de repente, uma segunda pergunta tornou a primeira quase insignificante.
Chegar onde?
E logo surgiu uma terceira, ainda mais desconfortável.
Alcançar o quê?
Talvez a grande tragédia da condição humana nunca tenha sido a velocidade.
Talvez tenha sido esquecer o destino.
Porque uma vida acelerada pode continuar a ter sentido.
Uma vida sem horizonte transforma-se apenas num movimento incessante.
Recordei então algumas homilias do Padre Sílvio e do Padre Nuno, que me ensinaram uma coisa extraordinária: a Escritura raramente pretende apenas contar acontecimentos; procura revelar quem somos.
É por isso que o Génesis nunca foi, para mim, um tratado de botânica.
Nunca esteve verdadeiramente em causa um fruto.
O que está em causa é muito mais profundo.
Está em causa a identidade do ser humano.
A árvore colocada no centro do jardim representa um limite.
E os limites possuem uma função profundamente libertadora: recordam-nos que não somos o princípio nem o fim de todas as coisas.
O drama começa quando o ser humano deixa de aceitar a beleza de ser criatura e passa a desejar ocupar o lugar do Criador.
Não porque procure sabedoria.
A tradição bíblica nunca condenou a inteligência.
Condena outra coisa.
A soberba de acreditar que a realidade pode ser definida exclusivamente pela própria vontade.
É a antiga ilusão da autossuficiência.
A convicção de que já não precisamos de escutar, de aprender, de confiar nem de reconhecer que existe algo maior do que nós.
Curiosamente, passaram milénios.
Mudaram as roupas.
Mudaram as cidades.
Mudou a tecnologia.
Mas a tentação permanece exactamente a mesma.
Hoje já não estendemos a mão para um fruto.
Estendemo-la para o controlo absoluto.
Queremos controlar o futuro.
As pessoas.
Os afectos.
O tempo.
A imagem que os outros têm de nós.
Queremos prever todas as consequências, eliminar toda a incerteza, antecipar toda a dor.
No fundo, desejamos aquilo que nenhuma criatura pode possuir: domínio absoluto sobre a existência.
E é precisamente aí que começa o sofrimento.
Porque a realidade possui uma característica profundamente pedagógica.
Recorda-nos, diariamente, que não somos omnipotentes.
Podemos planear.
Nunca garantir.
Podemos desejar.
Nunca determinar.
Podemos semear.
Nunca obrigar a vida a produzir exactamente aquilo que imaginámos.
Talvez por isso sinta uma enorme ternura por aqueles que acreditam ser os únicos autores da própria história.
Não porque lhes falte inteligência.
Mas porque carregam um peso que nenhum ser humano consegue suportar durante muito tempo.
O peso de acreditar que tudo depende exclusivamente deles.
Entretanto, a narrativa bíblica apresenta uma das perguntas mais desconcertantes de toda a literatura.
"Adão, onde estás?"
Sempre me fascinou esta passagem.
Como pode Aquele que tudo conhece perguntar onde está um homem?
A pergunta não procura localização.
Procura consciência.
Deus não interroga porque ignora.
Interroga porque ama.
Há perguntas cuja finalidade não é informar quem pergunta.
É despertar quem responde.
"Onde estás?"
Não onde escondeste o corpo.
Mas onde escondeste a tua verdade.
Onde perdeste a paz.
Onde deixaste de habitar a tua própria consciência.
Onde começaste a viver para parecer em vez de simplesmente ser.
E a resposta de Adão continua a ecoar dentro de todos nós.
"Ouvi a tua voz e tive medo."
É talvez uma das frases mais humanas de toda a Escritura.
O primeiro fruto da ruptura não é a morte.
Não é sequer a expulsão.
É o medo.
Porque o medo inaugura uma nova forma de existir.
Faz-nos esconder.
Faz-nos desconfiar.
Faz-nos construir personagens.
Faz-nos acreditar que só seremos amados se ocultarmos cuidadosamente aquilo que realmente somos.
Talvez seja por isso que tantos vivem uma vida inteira sem jamais serem verdadeiramente conhecidos.
Não mentem.
Mas também nunca se revelam.
Vestem máscaras tão antigas que acabam por confundi-las com a própria identidade.
A psicologia chama-lhe mecanismos de defesa.
A sociologia observa-o nas máscaras sociais que adoptamos para garantir pertença.
A psicanálise reconhece nele o sujeito dividido entre aquilo que é e aquilo que julga precisar de ser para continuar a ser amado.
A pedagogia recorda-nos que muitos destes medos não nasceram connosco; foram aprendidos.
A teologia acrescenta uma esperança extraordinária: nenhuma máscara consegue esconder-nos de Deus, mas todas conseguem esconder-nos de nós próprios.
Existe uma imagem que me acompanha frequentemente.
O fim da tarde.
Aquela hora estranha em que o dia já não é dia e a noite ainda não chegou.
Acendemos os faróis do carro, mas quase parecem inúteis.
Ainda não há escuridão suficiente para iluminarem o caminho.
Já não existe claridade bastante para caminharmos apenas com a luz natural.
É um território intermédio.
Ambíguo.
Suspenso.
Talvez a angústia tenha precisamente esta cor.
Não é a escuridão absoluta.
É a indecisão.
É o intervalo entre aquilo que deixámos de ser e aquilo que ainda não tivemos coragem de assumir.
É aí que muitos vivem durante anos.
Nem suficientemente próximos da verdade para encontrar paz.
Nem suficientemente afastados dela para deixar de sentir inquietação.
E, enquanto isso, continuam a correr.
Lembro-me sempre da imagem de um cão sentado à porta de um café.
Passa uma mota.
Ele corre atrás dela como se a própria vida dependesse daquele instante.
Mas imaginemos que, por acaso, a mota pára.
O cão também pára.
Olha.
Hesita.
E percebe-se que nunca soube verdadeiramente porque corria.
Apenas aprendeu a correr.
Não estaremos nós, tantas vezes, a fazer exactamente o mesmo?
Corremos atrás de estatutos que nunca questionámos.
De expectativas que nem sequer são nossas.
De sucessos que não definimos.
De metas que herdámos.
De aprovações que talvez nunca venham.
Corremos porque todos correm.
E confundimos movimento com sentido.
Mas o conhecimento verdadeiro nunca conduz à superioridade.
Conduz à humildade.
Quanto mais profundamente compreendemos a existência, menos necessidade sentimos de ocupar lugares acima dos outros.
Percebemos que todos transportam zonas de luz e regiões de sombra.
Todos conhecem batalhas invisíveis.
Todos escondem fragilidades.
Todos caminham com cicatrizes.
Por isso, a sabedoria nunca produz arrogância.
Produz misericórdia.
Porque quem se conhece verdadeiramente já não precisa de diminuir ninguém para se sentir maior.
Talvez seja precisamente aqui que a pergunta inicial encontra finalmente resposta.
Porque estamos a correr?
Talvez porque temos medo.
Medo de não chegar.
Medo de não valer.
Medo de não sermos suficientes.
Medo de sermos vistos como realmente somos.
Mas há uma liberdade extraordinária que nasce no instante em que deixamos de correr para provar valor e começamos simplesmente a caminhar na verdade.
Nesse momento, já não precisamos de ser deuses.
Basta-nos a extraordinária coragem de sermos plenamente humanos.
E talvez seja esse o verdadeiro conhecimento: não possuir todas as respostas, mas reconhecer humildemente Quem somos, onde estamos e para onde desejamos caminhar.
Porque, no fim, a pergunta mais importante nunca foi:
"Porque estás a correr?"
A pergunta decisiva continua a ser aquela que atravessa toda a história da humanidade e continua, ainda hoje, a ser sussurrada ao coração de cada um de nós:
"Onde estás?"
Talvez a resposta a essa pergunta valha mais do que todas as metas que alguma vez conseguiremos alcançar.
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Nota da Autora
Há textos que nascem de uma ideia.
Este nasceu de um hábito.
Todos os dias, quase sem exceção, revejo o filme da minha vida. As palavras que disse. As atitudes que tive. As reações que poderiam ter sido diferentes. Os silêncios. Os gestos. Pergunto-me, com honestidade, onde estive verdadeiramente presente e onde ainda preciso de crescer.
Não faço esse exame para me condenar.
Faço-o porque acredito que uma consciência que se interroga permanece viva.
A pergunta que atravessa este texto — "Onde estás?" — acompanha-me diariamente. Não a escuto como uma repreensão. Escuto-a como um chamamento constante a regressar ao essencial, a não me perder no ruído, na pressa ou nas distrações que tantas vezes confundimos com vida.
E quando procuro esse essencial, encontro sempre as mesmas respostas.
Amo profundamente o meu marido.
Amo profundamente a minha filha.
Amo profundamente o meu filho.
Amo os meus amigos.
Amo a vida, mesmo quando ela me desafia.
E amo Deus, porque foi n'Ele que aprendi que a verdadeira liberdade nunca nasce da perfeição, mas da verdade.
Rezo todos os dias.
Por aqueles que caminham ao meu lado.
Por aqueles que seguiram outros caminhos.
Por quem amo.
Por quem me feriu.
E por mim, para que nunca me falte lucidez para reconhecer os meus erros, humildade para os corrigir e coragem para continuar a caminhar.
Hoje continuo a acreditar em cada palavra deste texto.
Porque, no fim de tudo, a pergunta decisiva nunca será quantas coisas fizemos, quantos sucessos acumulámos ou quão depressa chegámos.
Será apenas esta:
Onde esteve o teu coração enquanto vivias?
Espero nunca deixar de conseguir responder:
Esteve onde sempre desejou estar: junto de Deus, junto da minha família, junto dos meus amigos e junto de todas as pessoas que a vida me confiou para amar.
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