"Manual de Instruções Não Incluído"
Há pessoas que entram numa sala e procuram uma cadeira.
Eu entro e procuro o manual de instruções da sala.
Não porque pretenda reorganizar o mobiliário, liderar uma revolução arquitectónica ou fundar um movimento internacional contra cadeiras. Simplesmente gosto de perceber porque razão as coisas são como são.
Talvez seja por isso que, desde cedo, desenvolvi uma relação complicada com as certezas absolutas. Sempre me intrigou a facilidade com que a humanidade transforma opiniões em dogmas, hábitos em leis naturais e convenções temporárias em mandamentos aparentemente eternos.
Basta uma ideia sobreviver durante alguns anos para começar a comportar-se como se tivesse sido criada juntamente com o Universo.
É um fenómeno fascinante.
E ligeiramente cómico.
Alguém toma uma decisão em 1987.
Ninguém a questiona durante três décadas.
Subitamente, a decisão adquire estatuto quase mitológico e passa a ser defendida como se tivesse descido do céu gravada em pedra.
Quando alguém pergunta "porquê?", instala-se frequentemente um silêncio desconfortável.
O silêncio é normalmente seguido pela resposta clássica:
— Porque sempre foi assim.
Uma frase extraordinária.
É simultaneamente uma não-resposta, uma tradição e uma tentativa subtil de encerrar a conversa.
Mas o meu cérebro tem um defeito de fabrico: raramente aceita o fim da conversa quando ainda nem sequer encontrou o início.
Por isso continuo a observar.
A comparar.
A desmontar raciocínios.
A abrir conceitos como quem abre relógios antigos para perceber o mecanismo escondido.
Nem sempre por discordância.
Muitas vezes por admiração.
Afinal, compreender é uma das formas mais sofisticadas de respeito.
Só quem observa atentamente procura perceber como algo funciona.
O curioso é que esta tendência nem sempre produz popularidade.
A sociedade aprecia inovadores desde que inovem discretamente.
Admira pensadores independentes desde que cheguem exactamente às mesmas conclusões que toda a gente.
Celebra a originalidade desde que não perturbe demasiado o funcionamento normal do sistema.
É uma relação complexa.
Quase romântica.
Mas sem a parte agradável.
Com o passar dos anos, porém, descobri algo libertador.
Nem todas as estruturas precisam da minha análise.
Nem todos os absurdos exigem intervenção.
Nem todas as batalhas intelectuais merecem recrutamento imediato.
A maturidade não me tornou menos curiosa.
Tornou-me mais selectiva.
Hoje continuo a fazer perguntas.
A diferença é que já não sinto necessidade de as fazer a toda a gente.
Há questões que guardo para mim.
Há reflexões que amadurecem em silêncio.
E há conclusões que prefiro contemplar em privado, como quem aprecia uma obra de arte sem necessidade de organizar uma conferência sobre o assunto.
Talvez seja essa a maior mudança.
Não deixei de questionar o mundo.
Passei apenas a escolher melhor os momentos em que o faço.
Porque a verdadeira independência intelectual não consiste em discordar de tudo.
Consiste em conservar a capacidade de pensar quando seria mais cómodo repetir.
Consiste em continuar a procurar sentido quando os atalhos parecem mais atraentes.
Consiste em não delegar a própria consciência.
Num tempo em que tantas pessoas procuram respostas rápidas, opiniões prontas e certezas embaladas para consumo imediato, continuo a achar que pensar é uma actividade demasiado nobre para ser terceirizada.
E talvez seja por isso que continuo a fazer perguntas.
Não porque espere encontrar todas as respostas.
Mas porque desconfio profundamente de quem afirma já as possuir.
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