"Reflexão (12/06/2026)"

 Dizem que estou mais invisível.

Uma observação curiosa, quase comovente, mas epistemologicamente imprecisa (ou seja: não corresponde bem à realidade, mas soa sofisticada o suficiente para circular em sociedade).

Porque, na verdade, não estou invisível.

Estou apenas em regime de visibilidade selectiva — uma expressão elegante para dizer que já não me exponho com a ingenuidade de outrora.

E sim, aqui entra a nuance importante.

Durante muito tempo, eu partilhava tudo.

Absolutamente tudo.

Reflexões diárias, vivências, pensamentos, sentimentos, acções, reacções, atitudes, passeios, conversas, epifanias menores e dramas existenciais de terceira categoria (aqueles que parecem profundos às três da manhã e ridículos às três da tarde).

Escrevia no próprio dia.

Por vezes antes de ir.

Outras vezes enquanto ainda estava a ir.

Houve até fases em que a vida parecia um evento secundário da escrita — uma espécie de ensaio geral para um texto que já estava, secretamente, publicado na minha cabeça.

Depois aconteceu algo sociologicamente relevante (ou seja: alguém descobriu o que eu não sabia que estava escondido à vista de todos).

Eu não sabia — repito, não sabia — que certas pessoas sabiam da existência do meu blogue.

E aqui reside o ponto de viragem.

Porque uma coisa é escrever para um “público abstracto” (entidade imaginária composta por desconhecidos educados, intelectualmente neutros e estatisticamente improváveis).

Outra coisa, completamente diferente, é perceber que o “público” tem nomes próprios, rostos familiares e um talento particular para ler em silêncio enquanto fingem uma ignorância estratégica (arte social altamente desenvolvida, diga-se).

Foi nesse instante que a minha prática mudou.

Não deixei de escrever.

Longe disso.

Escrever, para mim, é terapia — no sentido técnico e quase clínico do termo (processo de reorganização interna através da linguagem, sem necessidade de marcação prévia nem copagamento).

Está tudo escrito.

Tudo.

As vivências.

Os pensamentos.

As emoções.

As decisões.

As contradições.

Os passeios.

As quedas emocionais sem gravidade hospitalar.

E até aquelas iluminações intelectuais que, vistas à distância, parecem menos “iluminações” e mais “má iluminação de contexto”.

Mas agora há um detalhe essencial: a privacidade.

Não porque tenha deixado de escrever — mas porque passei a distinguir com rigor quase aristotélico (ou seja: com alguma disciplina mental e ligeiro exagero conceptual) entre o vivido, o escrito e o publicado.

Hoje vivo primeiro.

Depois processo.

Depois escrevo.

E só depois, muito depois, avalio se aquilo merece sair do arquivo privado — esse espaço sagrado onde residem versões minhas que não estão disponíveis para consumo imediato.

E aqui vem a ironia deliciosa.

Enquanto alguns dizem “estás mais discreta”, outros contabilizam mais de mil visualizações diárias no blogue.

Ou seja: estou menos visível… mas apenas para quem não está a ver.

Uma espécie de invisibilidade estatisticamente contraditória (fenómeno em que a ausência percebida não coincide com a presença real).

É quase uma lição de física social.

E talvez também de humildade algorítmica.

Porque sim, continuo a escrever como sempre escrevi.

Com a diferença de que agora compreendo algo essencial: nem toda a intimidade deve ser imediata, nem toda a verdade deve ser instantânea, nem toda a experiência deve ser publicada antes de ser digerida.

Há uma digestão do vivido — lenta, silenciosa, profundamente humana.

E escrever é isso: digestão simbólica com recurso a palavras.

Por isso sim, escrevo muito.

Talvez até mais do que antes.

Mas grande parte desse universo permanece em estado privado — não por segredo, mas por maturação.

Como um vinho que ainda não decidiu se quer ser aberto ou apenas lembrado com respeito.

No fundo, continuo a mesma.

Apenas mais prudente, mais selectiva e ligeiramente mais perigosa — porque quem escreve em privado escreve sem pressa de ser compreendido.

E isso, curiosamente, dá muito mais liberdade do que parecer invisível.

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