"Reflexão"

Todos procuramos equilíbrio, até mesmo aqueles que não sabem que o fazem. Eu própria, enquanto atravesso os dias como quem caminha por um território de neblina suave, descubro que a minha procura não é por um ponto de chegada, mas por uma forma de presença. Não persigo o fim da estrada; cultivo a maneira de a percorrer. Há em mim uma cadência interior, quase musical, que me convida a observar, a questionar e a sentir, como se cada passo tivesse de ser dado em harmonia com algo que me transcende e, ao mesmo tempo, me habita.

Viver, para mim, tornou-se um exercício de afinação. Afino a consciência, afino a intenção, afino o olhar. Procuro que o que penso, o que digo e o que faço não sejam três vozes dissonantes, mas um único acorde. Talvez seja isso que chamo integridade: não a ausência de falhas, mas a coragem de reconhecer as próprias rupturas e, ainda assim, insistir na coerência.

Foi neste estado de escuta interior que hoje me detive a refletir sobre a diferença, profunda e muitas vezes subtil, entre ensinar a doutrina e endoutrinar por condicionamento. À superfície, ambas podem parecer semelhantes, pois ambas utilizam palavras, narrativas sagradas, gestos de autoridade moral e rituais que criam sentido. No entanto, na sua essência mais íntima, movem-se em direcções opostas, como dois rios que nascem próximos, mas desaguam em mares diferentes.

Ensinar a doutrina, tal como a compreendo e tal como a reconheço na forma como Jesus caminhava entre as pessoas, é um acto de abertura radical. É lançar uma semente e confiar na liberdade da terra que a recebe. É apresentar um horizonte e permitir que cada consciência decida se quer ou não caminhar na sua direcção. O ensino verdadeiro respeita o tempo interior de cada um, honra a autonomia da consciência e convida à reflexão em vez de exigir adesão imediata. Não teme a dúvida, porque sabe que a dúvida pode ser o solo fértil onde a fé se torna mais profunda e mais autêntica.

Endoutrinar por condicionamento, pelo contrário, é um acto de fechamento progressivo. Não semeia; molda. Não propõe; dirige. Utiliza a repetição emocional como um instrumento de fixação, que, gesto após gesto, palavra após palavra, vai substituindo o questionamento pela identificação e a liberdade pela dependência. Isola para intensificar o vínculo, estimula para criar necessidade, repete testemunhos emotivos para reduzir a distância entre sentir e crer, e oferece recompensas simbólicas — pertença, validação, promessa de salvação — como se fossem moedas numa economia espiritual. O centro deixa de ser o crescimento interior e passa a ser a conformidade exterior.

No ensino, há espaço para o silêncio. E o silêncio, para mim, é sagrado, porque é nele que a consciência respira e a pergunta ganha forma. No condicionamento, há receio do silêncio, porque o silêncio pode abrir fendas por onde a autonomia se insinua.

Eu escolho o primeiro caminho. Escolho uma fé que não me segura pela mão com força, mas que caminha ao meu lado. Uma fé que me permite errar, regressar, reconstruir e recomeçar sem medo de ser expulsa do próprio processo de amadurecimento. Sei quando falho. Sinto o peso da falha e a humildade do lamento. Reconheço que fui eu, com as minhas escolhas, que escrevi determinadas páginas da minha história. E é também eu que aceito as consequências desses actos, como quem acolhe a noite depois de ter escolhido caminhar sem abrigo.

Não estabeleço com Deus um contrato de troca. Não O busco para coleccionar bênçãos nem para garantir uma salvação como quem assegura um lugar numa lista. A minha relação com o sagrado não é um comércio; é uma conversa. Eu busco amar. E, se ao longo desse caminho for tocada pela graça, recebo-a como quem recebe uma luz inesperada num quarto escuro — com gratidão, mas sem a transformar em moeda de motivação.

Não procuro validação para além dos círculos onde o amor é simples e não precisa de palco: a minha família, os meus amigos mais próximos, os laços que se sustentam no quotidiano e não no aplauso. Não necessito de sentimentos de pertença que sejam concedidos como prémio, porque já pertenço onde a minha história começou e continua a ser escrita. Não gosto de ser o centro das atenções. Prefiro a discrição de uma presença que existe sem se impor, como uma lâmpada acesa numa sala silenciosa.

Em Deus, busco paz. Busco integridade, valores morais e amor. Quero conhecê-Lo para O amar mais e melhor e, nesse movimento, tentar — apenas tentar — tornar-me uma pessoa santa. Para mim, a santidade não é uma coroa nem um troféu espiritual. É um exercício quotidiano, quase invisível, de justiça, de compaixão e de verdade, praticado sobretudo quando ninguém está a observar.

E é por isso que, quando penso na forma mais bela de evangelizar, não penso em discursos elaborados nem em fórmulas perfeitas. Penso em gestos que falam mais alto do que as palavras. Penso numa presença que não se impõe, mas se oferece.

Jesus, na forma como O leio e O contemplo, não apenas ensinou com a voz; ensinou com o corpo, com o tempo e com a atenção. Ensinou com o carinho que se inclinava sobre os esquecidos. Com a compaixão que tocava os considerados intocáveis. Com a generosidade que partilhava o pão e a escuta. Com o altruísmo que se dava sem calcular retorno. Com a compreensão que escutava antes de julgar. Com a paciência que caminhava ao ritmo dos mais lentos. Com a partilha que não era espectáculo, mas intimidade. Com a autenticidade que não precisava de palco. Com a liberdade que não prendia, mas libertava.

Evangelizar, para mim, é tornar-me um espaço seguro onde o outro pode existir sem medo de ser moldado. É ser um reflexo imperfeito, mas sincero, de um amor que não condiciona, que não negocia, que não manipula. Um amor que simplesmente se oferece, como uma porta aberta num dia de calor.

Talvez seja aqui que o meu equilíbrio encontra morada: entre a palavra e o gesto, entre a fé e a liberdade, entre o céu que contemplo e a terra que piso. Não me movo com a ilusão da perfeição, mas com a esperança teimosa da coerência. Sigo a buscar uma santidade silenciosa, que não pede aplauso, não exige palco e não precisa de ser vista para ser real.

E, assim, continuo.

Não para chegar.

Mas para ser.

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