"Amor e Pertencimento — Confissão"
Eu não encontrei respostas. Encontrei-me.
Nestes últimos dois anos, caminhei por um território onde a linguagem falha e a alma grita. Um lugar onde a dor e o amor não se alternam — colidem. Onde nada é limpo, nada é simples, nada é leve. Tudo é humano. E eu, no centro disso tudo, exposta, sem armadura, sem argumento, apenas presença.
O ponto inicial foi a dor.
Não uma dor elegante, dessas que cabem em metáforas bonitas. Foi uma dor crua, sem estética, sem piedade. A decepção que me roubou o chão. A impotência que me fez olhar para o teto à noite e perguntar a Deus porquê. A culpa — essa palavra pesada — por não conseguir proteger o coração que bate fora do meu corpo, nos meus filhos, naquilo que amo com uma ferocidade que me assusta e me define.
Fui caracterizada. Adjetivada. Reduzida a versões de mim que não reconheci no espelho. Fui injuriada, humilhada, esmagada por narrativas que não escrevi, mas que tentaram escrever-me. Expliquei-me até a voz cansar. Justifiquei-me até a dignidade doer. E, mesmo assim, encontrei silêncio.
Foi aí que algo em mim partiu.
Mas foi também aí que algo em mim nasceu.
Porque, no mesmo lugar onde sangrei, descobri o amor — não como conforto, mas como decisão. O amor pelos meus filhos, pela minha filha, pelo meu marido: não um amor romântico e dócil, mas um amor de vigília, de trincheira, de quem fica quando tudo convida a fugir. O amor dos amigos, que não me pediram provas, apenas presença. E o amor a Deus, esse abismo onde caí quando já não sabia ficar de pé sozinha.
Eu escolhi ser a diferença.
Escolhi não devolver violência com violência. Não transformar ferida em arma. Não fazer da minha dor um palco. E isso custou-me mais do que qualquer confronto, porque revidar é fácil; permanecer inteira é brutal.
Descobri que carrego demónios. Não os dos outros — os meus. Aqueles que sussurram julgamentos, vinganças, fugas. Eu podia tê-los negado. Podia tê-los trancado num quarto escuro da consciência. Mas decidi domesticá-los, um por um, com lucidez e exaustão.
Escrevi como quem sangra pela boca.
Cada palavra foi um pedaço arrancado de mim. Analisei mensagens, e-mails, gestos, presentes envenenados, pensamentos que me atravessaram como lâminas. Não para condenar ninguém, mas para me impedir de me tornar aquilo que me feriu. Percebi um limite inegociável: só posso escrutinar o que vive em mim. Os outros são um território que não me pertence.
E então veio a fé.
Não como anestesia. Como incêndio.
Decidi estudar a Palavra de Deus porque me recusei a viver uma espiritualidade vazia, feita de gestos repetidos e frases herdadas. Sou católica, e sei que a teologia caminha com a filosofia, que a fé que não pergunta adormece, e a que não treme torna-se soberba. Eu pergunto. Eu confronto. Eu ajoelho-me e, ao mesmo tempo, penso. Quero um Deus que me atravesse, não um ritual que me embale.
Peço perdão. Tento não pecar. Sei que falho. Sei que todos falhamos. Mas tento — e esse “tentar” tornou-se a minha forma mais honesta de oração.
Na igreja encontrei pessoas. Humanas. Luminosas e sombrias, como eu. Mas os que escolhi para chamar de amigos não me pediram pureza nem perfeição. Acolheram-me inteira, com as minhas contradições, com a minha fé inquieta, com a minha força e o meu cansaço. E eu acolhi-os de volta, sem defesas.
Foi aí que percebi:
Eu pertenço.
Não a um edifício. Não a um discurso. Não a uma imagem de santidade.
Eu pertenço a um lugar onde posso existir sem me diminuir. Onde posso ser forte sem ser dura. Onde posso ser frágil sem ser fraca. Onde posso amar sem me perder.
A evolução ainda está a acontecer. Eu ainda estou a acontecer.
Mas aprendi a amar melhor. A mim — com menos crueldade e mais verdade. Aos meus — com presença e coragem. Aos outros — não com ingenuidade, mas com humanidade.
E se este texto provocar desconforto, que provoque.
Porque eu não escrevi para ser confortável.
Escrevi para ser real.
E, hoje, a minha maior vitória não é ter sobrevivido à dor.
É ter-me tornado, apesar dela, alguém que escolhe amar.
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