"Livre — Liturgia da Consciência"

Eu não sou totalmente livre.

Digo-o como quem abre o peito e como quem acende um altar. Digo-o em voz alta para que o mundo me atravesse e para que eu não me esqueça de mim. Digo-o porque a liberdade não é um estado de repouso, mas uma combustão contínua — uma chama que exige oxigénio ético, vigilância interior e coragem para não se apagar.

Falo hoje porque amanhã não é promessa, é hipótese. Um território instável, uma geografia que tanto me pertence como me escapa. Caminho sobre essa fronteira com a lucidez febril de quem sabe que existir é habitar a tensão entre o que escolhe e o que o escolhe, entre o que deseja e o que o mundo impõe.

A vida nunca nos prometeu felicidade.

Prometeu travessia.

E nós, herdeiros de séculos que se repetem como um refrão trágico, transformámos a travessia em labirinto: guerras que se transmitem como genealogias do ódio, violências que mudam de linguagem mas não de intenção. De um lado, o excesso que anestesia. Do outro, a carência que dilacera. No meio, uma multidão que aprende a sobreviver quando talvez pudesse aprender a ser.

Quando procurei o mundo, não encontrei um mapa.

Encontrei cinza.

Cinza nos olhos de quem escolhe não ver. Cinza na boca de quem repete verdades emprestadas. Cinza nas mãos de quem tenta segurar o sentido e o vê transformar-se em pó. Foi aí que compreendi, com uma clareza quase cruel: muitas das liberdades que celebramos são apenas jaulas com nomes mais elegantes.

E, ainda assim, eu insisto no amor.

Insisto como quem desafia uma ordem invisível. Insisto como quem escreve um nome numa parede em ruínas. Não o amor ornamental, não o amor retórico, não o amor domesticado para caber em slogans — mas o amor como insubmissão radical, como ética em movimento, como recusa em reduzir o outro a objeto, a número, a ruído.

Imagino um povo que se importa.

Um povo que se inclina em vez de se elevar. Que escuta em vez de proclamar. Que reconhece, no rosto do outro, a própria vulnerabilidade refletida. Um povo assim não reformaria apenas sistemas — reconfiguraria a respiração do mundo, alteraria o ritmo da história, deslocaria o eixo do que chamamos progresso.

Nem todos querem.

Nem todos conseguem.

E aceitar essa limitação sem endurecer o coração é uma forma elevada de maturidade espiritual.

A vida responde.

Responde com uma precisão quase litúrgica. Aquilo que lhe entregamos regressa transfigurado. Se lhe damos ausência, devolve-nos um vazio que ecoa como catedral vazia. Se lhe damos indiferença, oferece-nos um deserto que se estende para além da paisagem e entra na alma. Cada pausa no cuidado, na dignidade, na justiça, na liberdade, no amor torna-se uma cicatriz coletiva que atravessa gerações como uma herança que ninguém escolheu, mas todos carregam.

Habitamos, tantas vezes, uma realidade editada.

Uma simulação confortável onde confundimos opinião com verdade, velocidade com profundidade, exposição com presença. Vivemos como se o mundo nos devesse algo, esquecendo que também lhe devemos a nossa lucidez, a nossa responsabilidade, a nossa coragem de não passar intactos pela vida dos outros.

Eu não me absolvo.

Eu falhei.

Falhei em silêncios que podiam ter sido pontes. Em gestos adiados que se tornaram ausências definitivas. Em olhares desviados quando alguém precisava, apenas, de ser visto. Carrego essas falhas não como sentença, mas como vigília — para que a consciência não adormeça, para que a humanidade não se me torne hábito.

Porque mudar não é renegar o que fomos.

É integrar. Transmutar. Reescrever.

A ideia de um mundo dividido em polos, centros, margens, cores e rótulos é um teatro que nos distrai daquilo que verdadeiramente nos constitui. A transformação não nasce em palcos nem em proclamações inflamadas. Nasce na intimidade quase invisível das escolhas quotidianas: na palavra que escolhemos não ferir, no gesto que escolhemos não negar, no tempo que escolhemos oferecer quando ninguém está a aplaudir.

Eu não espero que o mundo se salve.

Eu espero salvar a forma como estou nele.

Porque talvez a liberdade não consista em romper todas as correntes externas, mas em reconhecer as que nos atravessam por dentro — e, apesar delas, escolher não nos tornarmos aquilo que nos oprime.

E talvez — só talvez — cada consciência que desperta seja uma fenda luminosa na arquitetura do mundo.

Repito, então, como cântico e como desafio, como oração e como manifesto:

Eu não sou totalmente livre.

Mas sou, todos os dias, inexoravelmente responsável pela forma como amo, pela forma como vejo, pela forma como existo.

E isso, por si só, já é uma revolução silenciosa.

Com amor,

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