"Deve ser dito..."

 Para que não subsistam dúvidas — nem equívocos perigosos — é necessário afirmá-lo com clareza, coragem e verdade: a Igreja nunca ensinou que a mulher deve permanecer num casamento abusivo. Nunca. E isto precisa de ser dito, repetido e compreendido. O abuso não é cruz; o abuso é pecado. A violência não santifica, o sofrimento imposto não redime e o silêncio forçado nunca foi virtude cristã.

O matrimónio, enquanto sacramento, é chamado a ser espaço de amor, de doação mútua, de cuidado e de proteção recíproca. Ele existe para promover a vida, a dignidade e o crescimento integral dos cônjuges. Quando esse vínculo se transforma num lugar de medo, humilhação, agressão física, psicológica, moral ou espiritual, estamos perante uma grave desordem moral. Nenhum sacramento — absolutamente nenhum — autoriza a destruição da pessoa humana.

É essencial compreender que Deus nunca pede sacrifícios que anulem a dignidade de quem ama. A fé cristã não glorifica a violência, nem legitima a permanência em situações que atentam contra a integridade física e psíquica. A cruz de Cristo não foi um sofrimento passivo imposto por abuso; foi um acto livre de amor redentor. Confundir abuso com cruz é uma perversão teológica e pastoral profundamente danosa.

A própria Igreja reconhece — de forma explícita e doutrinal — que, em situações de violência grave, perigo real ou degradação contínua, a separação pode ser não apenas legítima, mas necessária. Necessária para proteger a vida, a saúde mental, a dignidade da pessoa e, de modo muito particular, os filhos. Separar-se nestas circunstâncias não é desprezar o sacramento nem agir por capricho emocional; é exercer prudência, responsabilidade moral e cuidado com aquilo que Deus criou e ama: a pessoa humana.

Ao longo da história, vozes claras da santidade confirmaram esta verdade. São João Paulo II foi inequívoco ao afirmar que a mulher jamais pode ser tratada como objecto ou instrumento de domínio. A sua teologia do corpo assenta precisamente na dignidade inviolável da pessoa, chamada à comunhão e não à submissão destrutiva. Santa Teresa de Ávila, com a lucidez espiritual que lhe era própria, recorda-nos que Deus não deseja sacrifícios que destroem interiormente a pessoa. E São José, modelo de esposo e de pai, é apresentado pela Igreja como aquele que protegeu Maria — nunca como alguém que a expôs ao medo ou à violência.

Por isso, é urgente dizer: não confundas fé com passividade. A fé cristã é activa, lúcida, responsável. Não confundas perseverança com medo, nem obediência com anulação pessoal. Deus não pede que te percas para que outro se mantenha. Não pede que te cales para preservar uma aparência. Não pede que os filhos cresçam num ambiente de terror para sustentar uma imagem sacramental vazia de amor.

Há momentos em que desistir de um casamento é a única forma de não desistir de si mesma. E isso não é egoísmo; é sobrevivência moral. Amar também é ter coragem de agir, de proteger, de dizer basta quando o limite foi ultrapassado. Amar é cuidar de si para poder cuidar dos filhos. Amar é recusar a normalização da violência.

A Igreja — quando fiel ao Evangelho de Cristo — está ao lado da vida, da dignidade e da verdade. E a verdade é esta: nenhuma mulher é chamada a permanecer onde é ferida. Nenhuma criança deve crescer onde o amor foi substituído pelo medo. Deus não habita na violência; Deus habita onde a pessoa é respeitada, protegida e amada.

Que esta reflexão não sirva para alimentar culpas, mas para libertar consciências. Porque o Evangelho não aprisiona — liberta. E a fé, quando é autêntica, nunca destrói quem acredita.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

"A Elegância de Permanecer Inteira"