Brincadeiras à parte — porque a certa altura é preciso pousar o nariz de palhaço para que a seriedade possa entrar — oferecer os meus textos para avaliação profissional, académica e psicológica foi o equivalente a atirar-me ao abismo... e descobrir, em pleno voo, que afinal tinha asas. Um paradoxo encantador: só percebi a possibilidade de voar quando já não tinha chão. Nunca, nem nos meus mais delirantes sonhos de grandeza moderada, perspetivei alcançar o que agora, quase incrédula, vou alcançando com passos que ainda me parecem de algodão.
As avaliações foram boas — e aprendemos muito cedo que modéstia também pode ter a sua vertigem — mas, curiosamente, não é isso que mais importa. O que realmente interessa é a evolução: essa metamorfose silenciosa, assistida por gente que sabe infinitamente mais do que eu e que, com paciência quase pedagógica, me foi oferecendo pequenas luzes para os meus grandes labirintos. Das regras gramaticais à arquitectura do texto, da pontuação ao pensamento que se organiza, fui colhendo indicações preciosas como quem recolhe pedras brilhantes na margem de um rio. A língua, de repente, deixou de ser apenas instrumento e passou a ser casa — e oficina, e jardim, e às vezes campo de batalha.
Do ponto de vista psicológico — atrevo-me a dizê-lo com um sorriso meio incrédulo — estou bem. Sim, bem. Incrível, eu sei. Também eu, confesso, alimentei aquele receio quase novelístico de que, ao expor o que escrevo e o que penso, alguém me sugerisse internamento imediato e cama com grades. Fiquei relutante, retraída, como quem teme a sentença de um júri invisível. Mas, contra todas as expectativas catastrofistas que me habitam com entusiasmo, aconteceu o contrário: descobriram em mim humanidade, imperfeição trabalhável, um caos organizado que afinal é bastante comum. Não sou má de todo — afinal, parece que há em mim mais pessoa do que perigo.
Hoje olho para trás e percebo que a ignorância inicial não foi falha, mas condição. Não saber permitiu começar. O não-saber libertou-me da arrogância do controlo e empurrou-me para a aprendizagem contínua. Vivo agora numa espécie de equilíbrio instável, onde sei o suficiente para questionar, e ignoro o bastante para continuar curiosa. Há nisto uma beleza discreta: a de quem avança às apalpadelas e, ainda assim, encontra portas.
Se algo aprendi neste processo — que é académico, psicológico, literário e profundamente humano — é que crescer dói, mas compensa. Que o texto é espelho e é estrado: reflecte e expõe. E que o humor, essa forma elegantíssima de resistência, nos salva do dramatismo excessivo das nossas próprias misérias.
Continuo, portanto, sem saber exatamente onde esta aventura me levará. Mas caminho com uma certa majestade desastrada, consciente de que a perfeição não é destino, é horizonte móvel. E, enquanto avanço, vou colecionando lições, risos, correções, pequenas quedas e grandes voos. Afinal, contra tudo e quase contra mim, descobri algo que vale a pena dizer em voz alta: não sou má de todo — e isso, para já, é absolutamente extraordinário.
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