"Cântico do Toque Verdadeiro"

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No limiar do tempo, onde o mundo se cala,
ergue-se um gesto simples, sem glória nem coroa,
um toque que não corre, não exige, não fala,
mas escreve na alma a verdade que ecoa.

Não vem com trombetas nem luzes acesas,
não pede aplauso, nem palco, nem nome,
chega descalço, em promessas ilesas,
como quem sabe que o real não consome.

Há olhares que nascem sem pedir tradução,
como mapas antigos gravados no peito,
e presenças que erguem, em suave canção,
uma casa invisível dentro do sujeito.

Aprendi nas batalhas do sentir e do ser
que nem todo o beijo conquista um reino,
que há abraços que passam sem nunca vencer,
e há um só que transforma deserto em terreno.

Pois existem gestos pequenos no chão
que carregam o peso de eras inteiras,
entregas silenciosas em forma de mão
que valem mais do que todas as bandeiras.

O corpo reconhece, em sagrado sinal,
o que o coração já jurou compreender:
o que é verdadeiro não grita, não rival,
permanece em silêncio para florescer.

E eis a beleza do toque que vem,
não para curar um vazio ou ferida,
mas para lembrar que ainda somos alguém
capaz de sentir a própria vida.

Não quer espetáculo, nem coro, nem cena,
quer apenas presença, respiração,
pois no gesto mais simples habita a centelha
que devolve ao humano a sua dimensão.

Que sejamos, então, na palavra e na ação,
cavaleiros da honra do sentir profundo,
deixando como herança, na breve passagem,
a verdade que toca e conquista o mundo.

Porque quando o tempo fechar o seu véu,
e a memória for tudo o que restar do ser,
que se diga em silêncio, na terra e no céu:
aqui passou alguém que soube sentir e ser.

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