"Lutos"
Há lutos que não são fotografados, não se vestem de negro nem se anunciam em obituários. Circulam sem passaporte, clandestinos mas legítimos, alojados no espaço onde a consciência e a experiência se roçam com alguma estranheza. Não são lutos por pessoas, mas por modos de habitar o mundo. Por um mapa afetivo que se tornou obsoleto. Pela antiga gramática com que decifravas a realidade e que, de repente, deixou de conjugar como dantes.
Sim, existem vários lutos — e um dos mais silenciosos é o luto pela perda de uma forma de ver. Não morre alguém, morre um olhar. Morre a versão ingénua de ti, inteira e luminosa, que acreditava que a vida era um mecanismo sensato onde o mérito encontrava recompensa, o bem recebia aplausos e a justiça funcionava sem interrupções técnicas. Acreditávamos, com comovente convicção, que bastava fazermos o que “era suposto” para que o mundo correspondesse. Era uma espécie de contrato tácito com o universo; ninguém o assinou, mas todos confiámos nele até à primeira cláusula invisível.
E então, subtilmente, o mundo desarruma-se. A decepção instala-se, primeiro como hóspede educado, depois como inquilino sem intenção de sair. As exigências multiplicam-se, as frustrações ganham vocabulário, e percebemos — nem sempre com elegância — que a vida não tem obrigação de se organizar segundo os nossos desejos. Crescer, compreender, saber: tudo isto tem um preço. A moeda chama-se ingenuidade. Pagamos com juros.
Este luto não se limita à morte concreta; ele expande-se para o território difuso do simbólico. Chora-se a perda de uma crença, a ruína de um ideal, a erosão de uma fé, a implosão de um futuro imaginado com tanto rigor que quase parecia já vivido. Perde-se a imagem idealizada de si próprio — aquela personagem robusta que habitava as nossas fantasias de grandeza doméstica. Perde-se, sobretudo, a ilusão de simplicidade que organizava o desejo e dava à realidade um verniz de previsibilidade.
O sofrimento, ao contrário do que tantas vezes supomos, nem sempre aparece porque algo “correu mal”. Muitas vezes, ele emerge porque algo mudou de lugar. O mundo não ruiu; apenas se deslocou. As ideias já não encaixam na mesma moldura, o corpo já não habita o mesmo significado, e a identidade começa a fazer perguntas inconvenientes que não vêm com manual de resposta rápida. É desconfortável, por vezes devastador, mas intelectualmente honesto: a maturidade raramente chega com flores, preferindo entregar-se embrulhada em perplexidade.
Do ponto de vista psicológico, o luto pelo olhar perdido não é patologia — é processo. Não precisa sempre de cura acelerada ou soluções embaladas em frases motivacionais de catálogo. Certos lutos não se “superam”; caminham-se. Precisam de reconhecimento e nome, de tempo e dignidade. Quando não os nomeamos, eles procuram outras saídas: nostalgia persistente, tristeza difusa, cansaço que não dorme, sensação de vazio que ecoa como casa grande demais para o mobiliário das nossas certezas.
Não há retorno à visão antiga. A infância emocional não tem revisão de bilhete. Aquela sensação de proteção absoluta, ainda que ilusória, não regressa porque era, justamente, ilusão — e, paradoxalmente, cumpriu belamente a sua função. O que te falta, quase de certeza, não é voltar atrás, mas inventar um modo novo de seguir. Não se trata de reencontrar o mundo como era, mas de te reencontrares a ti no mundo como ele é.
Reconhecer a falta é gesto inaugural. Intelectualmente, significa admitir a incompletude; emocionalmente, aceitar que o vazio também é conteúdo. Há uma ética do luto: permitir-lhe existência sem transformar a dor em residência permanente. Atravessar, não negar; compreender, não estetizar; elaborar, não fossilizar. É aqui que a psicologia e a literatura apertam mãos — ambas percebem que a perda reorganiza o sentido.
A vida adulta, com toda a sua majestade caoticamente organizada, exige competência paradoxal: saber que nada é totalmente seguro e, apesar disso, comprometer-se. Abandonar a fantasia do mundo justo para poder agir nele com responsabilidade real. Perder a inocência para ganhar lucidez; despedir-se da proteção para conquistar autonomia; permitir que o ideal estale para que surja, no seu lugar, algo menos perfeito, mas mais verdadeiro.
Há, portanto, uma beleza trágica neste luto: ele abre espaço. Desloca-te, sim, mas também amplia-te. Obriga-te a construir sentido em vez de o herdares. Ensina-te que o mundo não é simples nem está obrigado a ser justo — e que, ainda assim, vale ser vivido com ternura crítica e humor resistente.
Talvez estejas, afinal, no limiar de uma transformação que não pediste, mas à qual já pertences. E, se quiseres uma conclusão provisória — porque as definitivas são ficção — dir-te-ei isto: o luto pela ingenuidade não é o fim do encantamento. É apenas a sua versão adulta, menos ruidosa, mais funda, mais tua. E, quase sempre, é no momento em que reconhecemos a falta que, discretamente, começa qualquer coisa nova.
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