"Consolo pueril"

 A morte leva quem amamos; o luto leva quem somos. Não de forma discreta ou educada — não, a morte não pede licença nem respeito pela conveniência —, mas com a brutalidade silenciosa de quem desmonta o mundo tal como o conhecemos. E o mundo, esse arquitecto arrogante das rotinas, dos planos e dos pequenos detalhes que julgávamos imutáveis, desmorona-se num instante. E nós, que nos julgávamos senhores do tempo, aprendemos a verdade: nada é permanente. Nem mesmo aquilo que nos parece sólido.

O profeta Isaías dizia que transportamos um tesouro num vaso de barro. E que dizer disso senão rir do fatalismo poético? O tesouro é a vida — frágil, preciosa, escorregadia. O vaso, o corpo — aparentemente forte, mas sempre prestes a estalar. Tentamos carregar o peso da existência como se fosse leve, mas cedo descobrimos que o barro racha, que o tesouro não cabe em mãos humanas, que a fragilidade é, na verdade, o nosso estado natural.

Perdi o pai. Perdi a mãe. Perdi um tio. Perdi amigos. Uma sucessão de ausências que se instalam e não perguntam, que não negociam. A morte não se limita a arrancar pessoas do nosso lado: leva-nos também para dentro de nós próprios, para um território incógnito e desconfortável. O luto não devolve inteiros; transforma, corta, redefine. Tornamo-nos outros — mais atentos, mais cautelosos, mais vulneráveis. Mais vivos, paradoxalmente, mesmo quando sentimos que algo se perdeu para sempre.

E, ainda assim, sei — e este saber não é consolo pueril, mas convicção firme — que a alma não morre. Morrer é apenas deixar de estar. Não é extinguir-se. A matéria cede, mas a essência persiste. Acredito que aqueles que amei vivem em Deus, num lugar onde a casa nunca fecha e onde o amor não conhece portas trancadas. Eternidade não é abstracção: é a prova de que tudo o que é verdadeiramente essencial sobrevive.

Continuo a sorrir, mesmo com o coração dilacerado. Sorrio porque rir é também acto de rebeldia, desafio à injustiça cruel da morte. O sorriso é a minha homenagem mais verdadeira: mantém vivos os que partiram, preserva a sua grandeza, reconhece o legado que me deixou. Eles continuam a ser extraordinários, mesmo quando não estão. E se há algo de irónico nisso, é que a vida nos força a rir no meio da dor, como quem não quer admitir que está a aprender a sobreviver.

Hoje sou outra. Não melhor, não pior — outra. O luto não nos devolve inteiros, mas ensina-nos a viver com o que ficou: a memória, os gestos, as palavras, os silêncios. Aprende-se a coexistir com a ausência, essa presença silenciosa e exigente que não se negocia. A dor e a lembrança tornam-se inseparáveis; a perda e a memória caminham juntas, tecendo-nos de novo em cada dia.

Sinto dor pela falta. Mas sorrio ao lembrar-me dos que partiram. Porque a vida, por mais injusta e fugaz que seja, permitiu que existissem comigo. E isso — mesmo depois da morte, mesmo depois do luto — continua a ser um privilégio que nem o silêncio mais profundo consegue apagar. Entre a fragilidade do barro e a permanência do tesouro, aprendi que a existência é uma dança cruel e magnífica: amarga, dolorosa, mas insuportavelmente bela.

E, se há humor nesta tragédia, está no facto de que continuamos a viver, rindo quando podíamos apenas chorar, desafiando a morte a ser mais rápida do que nós a amar.

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