"Gratidão(08/01/2025)"

O dia 8 de janeiro é, para mim, um dia especial. Não por grandes acontecimentos exteriores, nem por datas solenemente assinaladas no calendário, mas porque me lembra — com a delicadeza dos dias simples — aquilo que verdadeiramente sustenta a vida. Ontem não consegui escrever neste espaço, e os motivos são válidos, quase pedagógicos na sua evidência: a vida aconteceu, inteira, exigente e bela.

Foi um dia intenso, de trabalho apertado, de horários a encaixar como peças que teimam em não obedecer à lógica. Entre compromissos, responsabilidades e cansaço acumulado, procurei ainda um espaço essencial: estar com o meu filho mais novo. Não como tarefa, mas como escolha. E foi ele, curiosamente, quem decidiu ajudar-me. Não porque eu pedi — isso importa dizê-lo —, mas porque quis. Há gestos que não se ensinam; revelam-se. E quando surgem assim, espontâneos, têm uma força silenciosa que emociona mais do que qualquer discurso.

Recordo com ternura um momento aparentemente banal: um senhor, ao observá-lo, comentou com naturalidade que ele tinha “cara de bom menino”. Sorri. Fiquei orgulhosa. Não por vaidade, mas por reconhecimento íntimo. Porque ele é, de facto, um bom menino. Não perfeito, não idealizado — mas bom no sentido mais humano e mais raro da palavra: atento, disponível, capaz de se mover por cuidado e não por obrigação. Esses traços não se exibem; vivem-se.

Havia pressa, sim. Ele lembrava-me que a irmã fazia anos. Queria ir para casa. Queria estar presente. Queria celebrar. E quando finalmente chegámos, vi-o correr, literalmente iluminado, com um sorriso do tamanho do mundo, para abraçar a irmã. “Feliz aniversário”, disse, com uma alegria genuína, cheia de vontade de estar, de partilhar, de fazer coisas em família. Aquele abraço valeu mais do que qualquer agenda cumprida.

Nesse instante, fiz uma escolha consciente. Troquei o voluntariado e a escrita — coisas que também amo — por estar ali. Por fazer coisas simples em família. Por escutar risos, partilhar refeições, celebrar a vida no seu formato mais elementar e mais verdadeiro. Não foi uma renúncia; foi uma reafirmação de prioridades. Há dias em que servir o mundo começa por servir quem nos foi confiado mais de perto.

Este episódio, tão pequeno à vista de fora, ensinou-me muito. Sobre o tempo, que não se multiplica mas se oferece. Sobre a educação, que se revela nos gestos espontâneos e não nas lições decoradas. Sobre a felicidade, que raramente faz barulho, mas deixa rasto. E sobre a escrita também: há textos que não se escrevem porque precisam primeiro de ser vividos.

O dia 8 de janeiro ficou assim marcado — não por aquilo que fiz, mas por aquilo que escolhi. Escolhi presença em vez de produtividade. Escolhi vínculo em vez de desempenho. Escolhi família. E, no fim do dia, senti uma gratidão serena, profunda, quase silenciosa. Porque, no meio do cansaço e das exigências, pude testemunhar algo essencial: a bondade simples, o afeto sincero, o desejo genuíno de estar juntos.

Há dias que não deixam registo imediato neste espaço, mas escrevem-se noutro lugar — mais fundo. Ontem foi um desses dias. E hoje, ao recordá-lo, percebo que foi exatamente assim que devia ter sido.

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