"Avaliação"

 Hoje foi dia de avaliação. Não um dia qualquer, mas o dia em que se cruzaram dois territórios exigentes e profundos: o Antigo Testamento e o Mistério de Deus, esse abismo luminoso que a fé nomeia Santíssima Trindade. Curiosamente — ou talvez não — o corpo reagiu antes da razão. O coração desapareceu, disparou, bateu fora do ritmo conhecido, como se estivesse a atravessar um limiar invisível. Não me sentia assim nem nos tempos da escola, nem nas formações, nem sequer quando os meus textos são avaliados academicamente ou analisados em termos psicológicos. Aqui era diferente. Muito diferente.

Estudei. Estudei para escrever, para elaborar textos, para pensar e articular ideias com rigor e profundidade. Estudei para compreender. Mas, paradoxalmente, não estudei para o teste. Uma inconsequência, talvez. Ou talvez a consequência de quem vive o conhecimento mais como assimilação interior do que como memorização mecânica. Ainda assim, o nervosismo instalou-se. A mente acelerada, o corpo tenso, a consciência clara de estar diante de algo maior do que uma simples prova escrita.

Porque não era apenas conhecimento a ser avaliado. Era a forma como me deixei tocar pelo texto bíblico, como acolhi o Mistério, como tentei pensar Deus sem o reduzir. Quando o objecto de estudo é a Trindade — comunhão perfeita, relação pura, unidade que não anula a diferença — percebe-se rapidamente que não estamos perante um tema que se domina. Estamos perante um Mistério que se contempla com respeito e tremor.

E, nesse instante, só uma frase se impôs com serenidade: seja o que Deus quiser. Não como desistência, mas como acto de entrega consciente. Como quem reconhece que há saberes que não se controlam e respostas que não se forçam. Há momentos em que o melhor que se pode fazer é confiar.

Fui a primeira a terminar. Não sei se isso será um bom presságio ou apenas um detalhe sem significado. A mente, nesses momentos, procura sinais para se tranquilizar. Saí sem certezas, mas com uma paz discreta e profunda. A sensação de ter dado o que tinha, de ter sido honesta com o que sei e humilde perante o que ainda não sei.

Agora resta esperar. Logo se verá o resultado. Mas, independentemente da nota, algo já aconteceu: percebi, mais uma vez, que há avaliações que não se medem apenas em classificações. Medem-se no modo como nos colocam diante de Deus e diante de nós próprios. E hoje, entre o disparo do coração e a confiança silenciosa, aprendi que a fé não elimina o medo — ensina-nos a atravessá-lo com sentido, com verdade e com esperança.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

"A Elegância de Permanecer Inteira"