"Vitrário Íntimo"
Quem acompanha o meu blogue desde o início reconhece, sem esforço hermenêutico excessivo, uma mutação profunda, quase tectónica. E não me refiro apenas ao polimento da escrita, ao alargamento do léxico ou à maturação estilística — isso seria uma leitura superficial, quase preguiçosa. Falo, sobretudo, da transfiguração da matéria íntima, da mudança de substância e de intenção. Este espaço foi, em tempos, um diário assumido, um território de confissão onde os dias se alinhavam como contas de um rosário imperfeito: aventuras miúdas, entusiasmos desmedidos, quedas silenciosas. Havia reflexão pessoal sem pudor, poemas escritos com a urgência de quem sangra em palavras, dor vertida em frases que não pediam absolvição.
Nos relatos surgiam a família e os amigos, não como personagens literárias, mas como presenças vivas, falíveis, ternas. Comentava acontecimentos que me feriam e outros que me salvavam; nomeava defeitos e virtudes com a honestidade crua de quem ainda acredita que a verdade, dita com cuidado, não mata. Celebrava conquistas, analisava derrotas, organizava a mente como quem arruma uma casa depois de uma tempestade emocional. Escrever era um gesto terapêutico, quase doméstico: varrer, alinhar, respirar.
Depois veio o gesto menos romântico e mais ético: a retirada. Apaguei textos que passaram a ser utilizados como projécteis — não por mim, mas por terceiros que confundiram literatura com munição. Eliminei aventuras, passeios, vivências partilhadas, pensamentos e descrições onde outros se podiam reconhecer, mesmo quando nada ali era falso, exagerado ou vingativo. Não o fiz por medo, nem por arrependimento, nem porque a dor tivesse sido exagerada. Fiz-lo por protecção. Protecção dos outros, sobretudo. Às vezes, amar é saber calar o que poderia ser dito com razão.
Hoje partilho apenas fragmentos do meu dia, quase sempre deslocados no tempo, escritos no pretérito como quem cria uma distância higiénica entre o vivido e o publicado. Faço-o para proteger a minha família, para me proteger a mim, mas também para proteger terceiros de interpretações enviesadas e acusações absurdas. Não escrevo para destinatários ocultos, nem envio mensagens cifradas a quem não as merece. Escrevo, simplesmente. E escrevo muito. Apenas aprendi que nem tudo o que é escrito precisa de ser exposto.
Há quem confunda silêncio com vazio. Enganam-se. O silêncio pode ser fértil, quente, densamente significativo. Por vezes, o mistério tem mais calor e mais valor do que a exposição total. Há verdades que amadurecem melhor na sombra, longe do olhar apressado e do julgamento ruidoso. O blogue deixou de ser um espelho integral e passou a ser um vitral: filtra a luz, preserva a intimidade e ainda assim deixa ver o essencial. E talvez isso seja, afinal, a forma mais adulta — e mais literária — de continuar a existir em palavras.
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