"A fé que Jesus ensinou"
Há uma imagem de Jesus que o tempo e os discursos endurecidos tentaram diluir, mas que permanece intacta para quem se dispõe a olhar com honestidade: Jesus sentava-se com quem era excluído, tocava em quem ninguém tocava, escutava quem o mundo se habituara a ignorar. A sua presença não se impunha; aproximava-se. Não exigia mérito prévio; oferecia encontro. Aos olhos da sociedade da época — e, em muitos aspetos, também da nossa — Ele escolheu deliberadamente os invisíveis.
A fé que Jesus ensinou não nasceu da necessidade de controlo, mas do cuidado. Não se construiu sobre o medo, mas sobre a confiança. Era uma fé feita de escuta atenta, de atenção verdadeira, de proximidade concreta. Jesus não se limitava a resolver problemas imediatos; Ele restaurava pessoas. Quando partilhava o pão, não o fazia apenas para matar a fome do corpo, mas para devolver dignidade àqueles que já tinham sido privados de tudo — até do direito de se sentarem à mesa.
O milagre, em Jesus, nunca foi espectáculo. Foi relação. Não foi demonstração de poder, mas gesto de amor. E isso incomodou profundamente os que viviam de fronteiras rígidas, de hierarquias morais, de certezas fechadas. Jesus não ensinou o desprezo, nem o silenciamento do pensamento diferente. Muito menos ensinou a usar o nome de Deus como instrumento de ódio, preconceito ou vaidade espiritual. Pelo contrário, desmontou todas as tentativas de instrumentalizar Deus ao serviço do ego humano.
A sua pedagogia foi clara e exigente: mansidão, misericórdia, tolerância, amor sem condições prévias. Uma forma de amar que não cabe nas lógicas de exclusão, nem nas narrativas simplistas que ainda hoje circulam travestidas de fé. Jesus não construiu muros; construiu pontes. Não levantou bandeiras de poder; estendeu as mãos a quem o mundo tinha esquecido. Não procurou dominar consciências; libertou-as.
A fé que Jesus ensinou não grita, não humilha, não expulsa. Não se impõe pelo medo nem se afirma pela agressividade moral. É uma fé que acolhe, que escuta, que cuida e que restaura. Uma fé que se vive mais nos gestos do que nos discursos, mais na coerência quotidiana do que nas declarações públicas. Seguir Jesus não é alinhar com uma ideologia; é assumir um modo de estar no mundo profundamente contra-corrente.
Seguir Jesus é escolher amar quando seria mais fácil julgar. É oferecer dignidade onde só existem rótulos. É compreender que mansidão não é fraqueza, mas força espiritual amadurecida. Misericórdia não é conivência, mas lucidez interior. É saber que a verdade sem amor se torna violência, e que o amor sem verdade perde densidade. Jesus ensinou a difícil arte de unir ambas.
O amor que vem de Jesus não cabe em discursos vazios nem em slogans religiosos. Revela-se em atitudes diárias: na forma como olhamos, como escutamos, como tratamos quem pensa diferente, quem erra, quem cai. Revela-se na capacidade de permanecer humano num mundo que frequentemente desumaniza.
Talvez o maior desafio do nosso tempo seja precisamente este: voltar à essência da mensagem de Jesus. Não a uma fé endurecida pelo medo ou pelo orgulho, mas a uma fé viva, praticada, encarnada. Uma fé que não afasta, mas aproxima. Que não divide, mas reconcilia. Que não condena, mas transforma.
Que a nossa fé se pareça com a d’Ele: simples sem ser ingénua, exigente sem ser cruel, profunda sem ser arrogante. Uma fé cheia de graça. Porque viver assim não é apenas seguir Jesus — é aprender, finalmente, a ser verdadeiramente humano. E nisso, sim, está a felicidade.
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