"Opinião"

 Eu não me incomodo quando dizem que não mostro quem sou de verdade. Não é sequer uma revelação: é apenas uma velha novidade. Sei exactamente quem sou. A minha identidade não se alimenta da curiosidade alheia, nem precisa de se exibir em praça pública para existir. O que digo, o que revelo, o que silencio e o que reservo para mim está em plena coerência com a pessoa que sou — não com a personagem que alguns prefeririam que eu representasse.

Falo com autenticidade. Digo o que penso, sem adornos de conveniência nem máscaras destinadas a arrancar aplausos fáceis. Quando encontro dúvida no olhar de quem me escuta, esse olhar não me trespassa: passa-me ao lado. Não me fere, não me desorganiza, não redesenha quem sou. Gosto de mim assim — com as arestas, com as falhas, com as cicatrizes que não peço que ninguém admire.

Atravessei desertos. Plurais, longos, silenciosos. Sei, com a serenidade que só a experiência confere, que outros virão — amanhã ou daqui a alguns anos. Não me iludo com promessas de bonança perpétua. Conheço os meus defeitos e reconheço as minhas qualidades; não necessito que a opinião externa funcione como espelho oficial da minha existência. Conheço o meu caminho e sei o preço que paguei: o que lutei, o que perdi e o que escolhi deixar para trás para ser quem sou hoje.

Perguntam-me se odeio alguém. Não. O ódio exige um investimento afectivo demasiado alto; é um sentimento caro — quase luxuoso. Para odiar verdadeiramente alguém é preciso ter amado muito. Não desperdiço energia nessa economia emocional. Prefiro a distância, a lucidez e, sobretudo, a liberdade de seguir caminho sem carregar pesos que nada acrescentam.

Escuto a opinião dos outros — por cortesia, nunca por submissão. Analiso-a apenas quando assenta em algo que se pareça com verdade; observo o ângulo, o contexto, a intenção. Quase sempre descubro mais sobre quem fala do que sobre mim. Ainda assim, faço o exercício honesto: revejo os meus gestos, interrogo as minhas atitudes, pergunto-me se algo no meu comportamento pode ter gerado essa leitura. Se houver algo a trabalhar, trabalho. Se houver algo a corrigir, corrijo. Crescer não me assusta; o que me assustaria seria trair-me.

Quando a crítica nasce do vazio, da irrelevância ou do ruído social, não lhe atribuo estatuto de drama. No limite, transformo-a em matéria para um texto satírico — apenas para que não esqueça a sua própria insignificância. Nem tudo merece o peso do silêncio grave; algumas coisas merecem apenas um sorriso discreto e uma frase bem escrita.

Não mostrar tudo não é esconder-me: é escolher. Há quem confunda reserva com falsidade e profundidade com segredo. Não vivo para desfazer equívocos de plateia. Vivo com a tranquilidade de saber quem sou, de me reconhecer por dentro, de me olhar sem máscaras nem holofotes.

No fim, é simples: não me inquieta que digam que não mostro quem sou. O que sou não depende de veredictos alheios. A minha verdade dispensa microfones — basta-lhe consciência.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

"A Elegância de Permanecer Inteira"