"Reflexão pessoal"

 Há um tipo de solidão que não é ausência de pessoas, mas suspensão do ruído. Não é abandono; é despojamento. Foi nesse espaço — branco, amplo, silencioso — que me encontrei. E, contra todas as expectativas, não encontrei vazio. Encontrei amor. Encontrei família. Encontrei Deus.

O branco, esse lugar que tantos temem por parecer neutro ou frio, revelou-se-me como território de revelação. Quando tudo se cala, quando as palavras deixam de ser escudo e as distrações cessam, o essencial emerge com uma nitidez quase dolorosa. A solidão, longe de me reduzir, obrigou-me a ver com clareza aquilo que sempre esteve presente, mas que o excesso de movimento tornava invisível.

No princípio, resisti. O silêncio confronta, expõe, desmonta narrativas que construímos para sobreviver. No branco não há onde esconder intenções, medos ou feridas. É um espaço honesto, radicalmente honesto. Ali, deixei cair máscaras — até as espirituais — e fiquei apenas eu, com a minha fragilidade, a minha história e as minhas perguntas. Foi nesse lugar despido que percebi que nunca estive realmente só.

Descobri o amor não como emoção intensa, mas como presença constante. Um amor que não exige performance, que não depende de reconhecimento externo, que permanece mesmo quando falho. Um amor que não grita, mas sustém. Não o amor idealizado, mas o amor que resiste à imperfeição e continua a oferecer-se. Esse amor revelou-se-me primeiro na família — não como conceito abstracto, mas como realidade concreta, imperfeita e fiel. A família como lugar onde não se escolhe apenas quando é fácil, mas onde se permanece quando o cansaço pesa e as diferenças se impõem.

E foi nesse mesmo branco que reconheci Deus. Não como ideia distante ou resposta pronta, mas como presença discreta, firme, silenciosa. Deus não surgiu para preencher o vazio, mas para mostrar que o vazio nunca existiu. Estava lá antes, sustentando, esperando que eu tivesse coragem de parar para O reconhecer. No silêncio, compreendi que Deus não compete com o humano; habita-o. Não anula a dor; atravessa-a connosco.

A solidão tornou-se, assim, lugar de integração. Amor, família e Deus deixaram de ser compartimentos separados e passaram a formar um mesmo eixo de sentido. Percebi que amar é aprender a permanecer. Que a família é o primeiro espaço onde se aprende a não desistir. E que Deus é o fundamento silencioso que torna possível continuar mesmo quando não há garantias.

Este encontro não me afastou do mundo; devolveu-me a ele com maior consciência. Saí do branco mais atenta, menos reactiva, mais inteira. Aprendi que a verdadeira plenitude não vem da acumulação, mas da depuração. Não vem do excesso de palavras, mas da palavra certa. Não vem da multidão, mas da presença autêntica — ainda que silenciosa.

Hoje sei que a solidão não é inimiga. É mestra. E o branco não é ausência de vida, mas espaço de revelação. Foi ali que compreendi que o amor não se perde no silêncio, a família não se dissolve na distância e Deus não desaparece quando tudo parece vazio. Pelo contrário: é no branco que tudo se torna finalmente visível.

E talvez seja esse o maior ensinamento: quando temos coragem de atravessar a solidão sem fugir, descobrimos que nunca estivemos sós. Descobrimos que o amor permanece, que a família sustém e que Deus — silencioso, fiel — sempre esteve ali, à espera de ser reconhecido.

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