"Lume"

As homilias do senhor padre têm a particularidade rara de unir inteligência e coração, razão e afecto, num equilíbrio delicado que não é fruto do acaso, mas da oração e do estudo. Não são discursos passageiros: são respirações de alma, verdadeiras lufadas de ar fresco que nos sacodem suavemente do torpor, obrigando-nos a pensar com rigor, a meditar com profundidade, a aprender com gosto e, sobretudo, a crescer — humana e espiritualmente. Cada palavra parece escolhida com cuidado artesanal, como quem talha pacientemente uma peça única.

Hoje, a homilia deteve-se sobre a figura densa e fascinante dos três Reis Magos. O padre explicou com precisão histórica que se tratava de três sábios provenientes dos três grandes continentes então conhecidos: Europa, Ásia e África. Esta informação não é mera curiosidade erudita; é símbolo e teologia. Significa que toda a humanidade — o mundo inteiro — caminha ao encontro do Menino. Eles representam culturas distintas, línguas diversas, tradições afastadas que convergem numa mesma procura: a sede insaciável de Deus.

Os Magos não chegam por acaso. Lêem sinais, estudam os céus, interpretam estrelas. Têm ciência e têm humildade — duas atitudes que raramente coexistem e, no entanto, se completam de modo admirável. Reconhecem no Menino não apenas um recém-nascido excepcional, mas o Rei esperado, o Deus encarnado, o Mistério feito carne. Ajoelham-se não por submissão cega, mas por lucidez interior: viram, compreenderam e adoraram.

O padre deteve-se longamente no significado dos presentes, lembrando-nos que neles está condensada toda a fé cristã. O ouro — disse ele com voz firme e doce — é o dom que se oferece aos reis. Ao colocá-lo diante do Menino, os Magos proclamam a sua realeza. Não a realeza de corte e couraça, mas aquela que se exerce na mansidão e no serviço, a autoridade que se inclina para levantar. O incenso, perfume que sobe e se perde no alto, é o dom reservado a Deus. Oferecê-lo ao Menino é afirmar, sem rodeios, que Ele é verdadeiro Deus, digno de adoração e louvor. A mirra, usada para embalsamar os corpos e preparar os mortos, abre no presépio uma fresta de sombra: o Menino nasce já marcado pelo dom total de si, pela cruz que virá. Em três presentes, um tratado inteiro de cristologia: Rei, Deus e Homem entregue por amor.

Tudo foi explicado com rigor e beleza, sem pressa e sem artifício, num tom onde se sentia a profundidade do estudo e a ternura do pastor. E, como é seu hábito, o padre não deixou de temperar a densidade teológica com uma nota de humor inteligente, desse humor que não banaliza o sagrado, antes o torna mais próximo.

Falando do incenso, contou que algumas senhoras lhe tinham dito que o fumo lhes provocava tosse. Ele explicou, com serenidade divertida, que o incenso possui simbolismo e uso exorcístico. Elas, intrigadas, perguntaram-lhe como é que ele sabia que “funcionava”. O padre sorriu e respondeu para a assembleia: “Porque quando tossiam… eram os demónios a sair.” A igreja sorriu primeiro, depois riu com elegância e cumplicidade. E, curiosamente, depois dessa explicação espirituosa e clara, as senhoras… deixaram de tossir. Como se o bom humor tivesse curado também a sugestão, num pequeno milagre de graça e riso.

Esse momento valeu por uma catequese inteira. Não ridicularizou ninguém, não magoou, não caricaturou; explicou com leveza o peso do Mistério. A fé — apercebemo-nos — não exclui o sorriso. Pelo contrário: só uma fé adulta é capaz de rir com delicadeza.

Saí da igreja com a sensação nítida de ter recebido mais do que palavras: tinha recebido caminho. Percebi que os Magos somos também nós, cada um com o seu continente interior de dúvidas e esperanças, de noites longas e estrelas breves. Também nós caminhamos, erramos percursos, retomamos rotas, chegamos cansados e ajoelhamos, oferecendo o pouco que temos: as nossas incoerências, fraquezas, desejos, perguntas sem resposta. E é precisamente isso que Deus aceita como ouro, incenso e mirra.

A homilia de hoje foi, simultaneamente, ensaio teológico, narrativa simbólica e confissão de fé. Coerente, coesa, intelectualmente sólida e afectivamente tocante. Ritmada, bela, escrita na carne das coisas simples. O nosso padre tem o dom raro de unir erudição e proximidade, cultura e espiritualidade, humor e gravidade. Não fala de cima para baixo; fala de coração para coração — e eleva.

Os Magos regressaram “por outro caminho”. Também eu, depois desta homilia, regressei diferente. Mais lúcido, mais sereno, mais desafiado. Descobri que a verdadeira epifania não acontece apenas nos altares, mas dentro de nós, quando deixamos que o Menino nos revele quem somos e, sobretudo, quem Ele é.

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