"Continuidade"

 Sabes, na vida existem verdades que não admitem esquecimento. Não por moralismo, não por nostalgia, mas porque esquecê-las equivale a uma lenta forma de morte interior. Há memórias que não são opcionais, são estruturais. Esquecer a família, as pessoas que nos amam verdadeiramente e, sobretudo, esquecer Deus, não é apenas perder referências — é perder a própria identidade. Quando essas presenças sagradas se diluem na pressa dos dias, o ser humano começa a afastar-se de si mesmo, a viver por fora, desconectado do centro que o sustém.

Lembrar não é um acto passivo. Lembrar é um verbo activo, exigente, profundamente humano. Lembrar é amar outra vez. É escolher, conscientemente, manter viva a gratidão por quem nos antecedeu, o compromisso com quem caminha connosco e a fé que nos ultrapassa. A memória, quando é fiel, não se limita a arquivar o passado: ela dá-lhe continuidade, sentido e responsabilidade.

A família — seja ela de sangue, de escolha ou de circunstância — é o primeiro lugar onde aprendemos quem somos. É ali que a linguagem do amor se forma, mesmo quando imperfeita, mesmo quando marcada por falhas. Esquecê-la é amputar a raiz. As pessoas que nos amam, que nos sustentaram nos dias frágeis, que nos viram quando ainda não sabíamos ver-nos, são testemunhas vivas da nossa história. Quando as ignoramos, não estamos apenas a falhar com elas; estamos a falhar connosco.

E Deus… Deus não é apenas uma ideia ou um conceito espiritual distante. Deus é memória viva. É presença que não se gasta com o tempo nem se cansa da nossa distração. Há palavras na Escritura, no profeta Isaías, que atravessam os séculos com uma força quase desconcertante: “Ainda que uma mãe se esqueça do seu filho, Eu jamais me esquecerei de ti.” Esta afirmação não é poética por acaso; é radical na sua promessa. Ela recorda-nos que, mesmo quando o amor humano falha, mesmo quando a memória humana se fragiliza, o amor de Deus permanece intacto, atento, fiel.

Paradoxalmente, o ser humano passa a vida a investir energia em coisas que se desfazem: títulos que perdem valor, conquistas que não aquecem o coração, ruídos que ocupam o lugar do essencial. E, nesse processo, esquece-se, muitas vezes, de quem o ergueu do nada, de quem lhe deu nome, rosto e sentido. Esquece-se de que não se fez sozinho. Esquece-se de que a sua existência é fruto de um amor anterior, gratuito e persistente.

Lembrar é, por isso, um acto de humildade e de lucidez. É reconhecer que a vida não começa nem termina em nós. É aceitar que somos continuidade, herança e promessa. Quando lembramos com verdade, não ficamos presos ao passado; tornamo-nos responsáveis pelo presente e mais atentos ao futuro.

Que o tempo não apague da tua memória o que realmente importa. Que não se diluam os rostos que te ensinaram a amar, nem os gestos que te salvaram nos dias difíceis. Que não se apague o amor que recebeste, o amor que foste capaz de oferecer e, sobretudo, o amor de Deus, que nunca te perde de vista. Porque lembrar, no fundo, é resistir ao vazio. É permanecer vivo por dentro. É continuar a ser, com consciência, aquilo que foste criado para ser.

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