"Até qualquer dia"
Agradeço as mensagens como quem recolhe migalhas de luz
num quarto onde a janela ficou aberta demais.
Os telefonemas tocaram longe,
como sinos num vale onde eu já não estava.
Os emails chegaram a um lugar vazio,
a um nome que por dias deixei de reconhecer como meu.
Notaram a minha ausência.
Notaram o espaço que as palavras deixaram na mesa,
a cadeira vazia onde a escrita costumava sentar-se.
E essa atenção, tão simples,
doeu mais do que qualquer ataque.
Porque foi amor.
E o amor, quando chega, encontra sempre o ponto frágil.
Desde quinta-feira parti.
Fui para outro lugar,
como quem foge sem mapa,
como quem leva apenas o corpo
e deixa a alma a meio da estrada.
Caminhei por paisagens que não sabiam o meu nome,
dormi sob tectos que não guardavam os meus sonhos,
respirei um ar que não me reconhecia.
E, no meio de tudo isso,
perdi algo que ainda não sei chamar pelo nome.
Algo quebrou dentro de mim.
Não fez barulho.
Não sangrou.
Apenas deixou um espaço
onde antes havia calor.
Agora carrego um vazio que não pesa nos ombros,
mas dobra os dias.
Um silêncio que não é paz,
é ausência.
Não estou doente no corpo.
Estou ferida na parte de mim
que acreditava que certas coisas não se perdiam.
Não tenho vontade de falar.
As palavras parecem grandes demais
para o que ficou.
Não tenho vontade de escrever.
A página em branco parece um espelho
onde não me reconheço.
Vou tentar recolher os pedaços,
um a um,
como quem junta cacos de um vaso antigo
sabendo que nunca mais segurará a água da mesma forma.
Vou tentar voltar ao que me preenchia,
não para ser a mesma,
mas para aprender a ser outra
com o que sobrou.
Não prometo ficar.
Não prometo escrever.
Não prometo luz.
Prometo apenas isto:
não vou fingir que a perda não deixou um lugar vazio em mim.
E talvez, neste espaço oco,
neste eco que ainda dói,
um dia cresça qualquer coisa nova —
não como substituição,
mas como memória que aprendeu a respirar.
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