"Pensa nisto!"
Em pleno século XXI, num tempo em que os satélites circundam a Terra, a inteligência artificial aprende a linguagem humana e a ciência prolonga a vida para lá do que outrora se julgava possível, continuamos a tropeçar numa contradição essencial: a evolução material avança a um ritmo vertiginoso, enquanto a valorização da vida humana permanece, em demasiados lugares, rudimentar, frágil e desigual. É como se tivéssemos aprendido a dominar o mundo, mas ainda não tivéssemos aprendido verdadeiramente a cuidar uns dos outros dentro dele.
A miséria, nesse cenário, não é apenas uma sombra persistente. É uma presença estrutural, quase institucionalizada, que se infiltra nos sistemas económicos, nas decisões políticas e até na forma como narramos a realidade. Fala-se dela como um problema a resolver, mas, na prática, muitas vezes trata-se como um elemento a gerir. E há uma diferença profunda entre erradicar e administrar: erradicar exige ruptura; administrar permite continuidade.
Há uma ideia confortável que atravessa discursos públicos e conversas privadas: a de que a pobreza resulta, sobretudo, de falhas individuais — falta de esforço, de visão, de disciplina, de ambição. Essa narrativa tem uma utilidade silenciosa: desloca o foco das estruturas para as pessoas, do sistema para o sujeito. E, ao fazê-lo, absolve os mecanismos que produzem desigualdade, enquanto sobrecarrega os mais vulneráveis com o peso moral da sua própria condição.
Mas a miséria raramente nasce no vazio. Ela cresce em terrenos preparados por desigualdades históricas, por acessos negados, por sistemas educativos frágeis, por mercados de trabalho precários, por políticas que privilegiam a concentração de riqueza em detrimento da redistribuição de oportunidades. Cresce onde a herança social pesa mais do que o mérito individual e onde o ponto de partida determina, com demasiada frequência, o ponto de chegada.
Existe, assim, uma engrenagem invisível, mas profundamente eficaz, que transforma a pobreza num recurso. Um recurso político, quando serve de argumento em campanhas e discursos. Um recurso económico, quando alimenta sectores inteiros que dependem da precariedade, da mão-de-obra barata ou da dependência prolongada. Um recurso simbólico, quando é usado para reforçar narrativas de superioridade, caridade ou salvação.
Neste processo, a miséria perde o seu rosto humano. Deixa de ser a criança que vai para a escola sem pequeno-almoço, a mãe que escolhe entre pagar a renda ou comprar medicamentos, o jovem que aceita qualquer trabalho porque o futuro se tornou um luxo inalcançável. Passa a ser uma percentagem, um índice, uma linha num relatório anual. E quando a dor se transforma em dado estatístico, torna-se mais fácil ignorá-la sem culpa.
Os programas e medidas que surgem como resposta, embora muitas vezes bem-intencionados, tendem a mover-se dentro dos limites do próprio sistema que gera a desigualdade. Aliviam a superfície, mas raramente tocam na raiz. Mantêm o ciclo a girar: ajudam a sobreviver, mas não a sair verdadeiramente da condição de vulnerabilidade. E sair exigiria mais do que assistência — exigiria redistribuição de poder, de acesso, de voz e de possibilidades reais.
É aqui que a questão se torna profundamente incómoda, porque resolver de forma estrutural implicaria questionar privilégios consolidados, interesses económicos estabelecidos e modelos de crescimento que dependem, directa ou indirectamente, da existência de uma base ampla de pessoas em situação de fragilidade. Implicaria aceitar que a abundância de alguns não é totalmente independente da escassez de outros.
Compreender esta teia muda a forma como se olha o mundo. Deixa de ser possível ver a pobreza apenas como um infortúnio alheio e passa a ser inevitável reconhecê-la como parte de um sistema do qual todos, em maior ou menor grau, participamos e beneficiamos. A responsabilidade deixa de ser apenas institucional e torna-se também pessoal, ética, quotidiana.
A consciência social, neste contexto, não é um gesto ocasional de compaixão, mas uma postura contínua de atenção e questionamento. O pensamento crítico não é um luxo académico, mas uma necessidade cívica para desmontar discursos que simplificam o complexo e moralizam o que é estrutural. A educação — financeira, política, humana — torna-se uma ferramenta de libertação, não apenas de ascensão individual, mas de transformação colectiva.
Nada disto oferece soluções fáceis ou imediatas. As desigualdades que atravessam o presente são herdeiras de séculos de história, de colonizações, de modelos económicos, de escolhas políticas acumuladas. Mas há um poder real na forma como se nomeia a realidade. Porque aquilo que se compreende deixa de ser invisível. E aquilo que deixa de ser invisível começa, lentamente, a tornar-se inaceitável.
Talvez o maior risco do nosso tempo não seja a existência da miséria em si, mas a nossa capacidade de nos habituarmos a ela. De a integrar no panorama social como algo inevitável, quase natural. Como se algumas vidas estivessem destinadas a lutar permanentemente pela sobrevivência, enquanto outras se dedicam a discutir conforto, propósito e realização.
E, no entanto, por detrás de cada número, de cada gráfico, de cada relatório, há uma biografia inteira. Há sonhos adiados, talentos desperdiçados, afectos sacrificados em nome da urgência de subsistir. Há uma humanidade que não pede privilégio, mas possibilidade. Não pede caridade ocasional, mas justiça estrutural.
No fim, a verdadeira medida do nosso progresso não se encontra nos edifícios que erguemos, nos mercados que expandimos ou nas tecnologias que desenvolvemos. Encontra-se na forma como tratamos aqueles que o sistema empurra para as margens. Na nossa disposição para ouvir, questionar, renunciar a confortos injustos e imaginar modelos diferentes de convivência e de partilha.
Porque uma sociedade não se revela apenas pelo que celebra, mas, sobretudo, por aquilo que tolera. E enquanto tolerarmos que a miséria seja o preço silencioso da prosperidade de alguns, continuaremos a viver num mundo que avança em velocidade, mas permanece, no essencial, parado no mesmo lugar.
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