"Tem de ser dito"
Há verdades que não são ditas porque ferem o conforto, não porque sejam falsas. E esta é uma delas: quando um homem se casa, ele muda de lugar no mundo. Não acumula pertenças, não soma autoridades, não vive dividido entre dois centros. Ele deixa pai e mãe — não por desamor, mas por maturidade — para fundar um novo lar, com nova responsabilidade, nova prioridade e nova missão.
Este “deixar” não é simbólico, nem opcional, nem negociável conforme as circunstâncias. É estrutural. É ontológico. É uma passagem interior tão exigente quanto silenciosa: sair do lugar de filho protegido para assumir o lugar de marido responsável. Quem não faz esta travessia permanece suspenso num limbo afectivo, onde ninguém está verdadeiramente seguro.
Importa dizê-lo com clareza: honrar a mãe não é submeter-lhe o casamento. Respeitar os pais não é permitir que a sua voz se torne lei dentro do lar conjugal. A ordem é outra, e é sagrada. Mãe não é esposa. Esposa não é filha. Quando estes lugares se confundem, o lar perde eixo, instala-se a competição onde deveria existir aliança, e a intimidade conjugal começa a ser corroída por interferências que, mesmo bem-intencionadas, se tornam destrutivas.
Um homem que não estabelece limites claros vive dividido. E quem vive dividido enfraquece. Enfraquece o vínculo conjugal, expõe a esposa, cria fissuras onde deveria haver protecção. Na prática, mesmo sem o dizer, comunica uma mensagem dolorosa: “prefiro não desagradar à minha mãe do que sustentar o meu lar”. Esta escolha, quase sempre feita por medo e não por maldade, cobra um preço elevado: frieza emocional, perda de admiração, erosão do respeito mútuo.
Não se trata de desrespeito. Trata-se de ordem. A Bíblia não diz: “deixa pai e mãe quando for conveniente”, nem “quando todos concordarem”. Diz simplesmente: deixa. Porque só quem deixa pode unir-se plenamente. Só quem corta dependências emocionais pode construir autonomia conjugal. Só quem se posiciona pode proteger.
E aqui há uma distinção essencial: um homem maduro posiciona-se; um homem ainda menino esconde-se atrás do silêncio. O silêncio, nestes casos, não é paz — é omissão. Não é humildade — é fuga. Não é prudência — é medo de conflito. E cada vez que um homem se cala para evitar desconforto externo, cria desconforto interno no próprio casamento.
A liderança a que o matrimónio chama não é autoritarismo nem imposição. É presença firme, discernimento, coragem afectiva. É saber dizer “não” quando esse “não” protege o lar. É compreender que amar a esposa implica, muitas vezes, defendê-la, inclusive de interferências familiares que ultrapassam os limites do saudável.
Quando um homem não se posiciona, não preserva a paz — adia a ruptura. Porque nenhuma mulher se sente verdadeiramente segura num casamento onde o seu lugar precisa ser constantemente negociado. A esposa não pede rivalidade; pede prioridade. Não exige exclusão dos pais; exige clareza de papéis. Não quer ser escolhida contra alguém, mas quer ser escolhida como primeira.
Por isso, é preciso dizê-lo sem rodeios: o homem que não se coloca entre a mãe e a esposa não está a ser neutro — está a abandonar o próprio lar. Não por crueldade, mas por imaturidade. E a imaturidade, quando não é trabalhada, transforma-se em dano.
Casar é assumir uma nova lealdade. É compreender que o amor adulto exige cortes simbólicos, redefinições internas e coragem espiritual. Quem não aceita esta verdade continua filho quando já deveria ser marido — e nenhum lar sobrevive quando o homem não ocupa o lugar que lhe cabe.
Porque um casamento não se destrói apenas por conflitos visíveis. Muitas vezes, destrói-se em silêncio, na ausência de posicionamento, na falta de protecção, na incapacidade de escolher a aliança que foi selada diante de Deus.
E isso, sim, precisa ser dito.
Comentários
Enviar um comentário