"Reacender"

 

A pedido de muitos leitores — e também a convite discreto da própria consciência — retomarei a partilha das reflexões de cariz religioso que me têm acompanhado ao longo deste caminho. Falo como mensageira e como peregrina interior: pertenço ao movimento da Mensagem de Fátima, onde a fé não é apenas professada, mas estudada, meditada e trabalhada com a seriedade serena de quem sabe que o sagrado também exige disciplina.

As reflexões que partilho nascem, em grande medida, do boletim anual que estudamos e sobre o qual refletimos em comunidade. Esse livro não é apenas um conjunto de textos: é um itinerário espiritual, um convite à conversão interior, um diálogo contínuo entre o coração humano e o Mistério. O que aqui apresento não é invenção solitária; é eco — um eco pessoal, naturalmente filtrado pela minha sensibilidade, mas enraizado na tradição viva da Mensagem de Fátima.

Peço paciência — não apenas espiritual, mas também tecnológica. Continuo a pertencer com alguma teimosia afectuosa àqueles que escrevem à mão. Primeiro deixo que a reflexão passe pelo corpo: a caneta, o papel, o traço que hesita e regressa. Só depois faço a transição para o formato digital, para que possa ser partilhada no blogue. Entre o manuscrito e o ecrã há uma travessia: é lenta, mas é fiel. Cada palavra é copiada com o mesmo cuidado com que foi inicialmente rezada.

Escrever manualmente, neste contexto, é quase um gesto litúrgico. A lentidão imposta pela escrita à mão confere peso às palavras e impede que a fé seja tratada como slogan apressado. A reflexão, antes de se fazer texto, faz-se oração; antes de ser partilhada publicamente, passa pelo silêncio e pelo confronto íntimo. Se por vezes demoro, não é desorganização: é respeito. A fé também precisa de tempo para se dizer com dignidade.

Retomar estas partilhas é, de algum modo, retomar uma missão. Não me coloco na posição de quem instrui de cima para baixo; coloco-me na humilde condição de quem transmite aquilo que também a transforma. A Mensagem de Fátima não se esgota em fórmulas repetidas: continua a interpelar, a exigir leitura atenta e uma permanente revisão de vida. O boletim anual é escola e espelho. Dele retiro matéria para pensar, rezar e escrever — e, inevitavelmente, também para me rever.

A quem solicitou o regresso destas reflexões, agradeço com sincera gratidão. É reconfortante perceber que a palavra partilhada pode chegar a outros corações e, de algum modo, acompanhá-los na sua própria caminhada espiritual. Não ofereço respostas definitivas — essas pertencem a Deus — mas ofereço a transparência do meu processo: dúvidas, descobertas, consolos discretos, exigências éticas e essa alegria serena que permanece mesmo nos dias menos luminosos.

Assim, continuarei: manuscrito primeiro, digital depois; oração antes, partilha a seguir. Com humor suave — porque até a fé sabe sorrir — com respeito intelectual, com rigor na linguagem e com a consciência profunda de que a Mensagem de Fátima não é apenas lembrança do passado, mas apelo vivo para o presente.

Peço-vos, portanto, paciência e companhia. As reflexões virão — talvez devagar, mas com verdade. E que, em cada uma delas, não seja a minha voz a sobressair, mas aquilo que realmente importa: a discreta insistência de Deus a convidar-nos, uma e outra vez, à conversão do coração e à esperança que não se cansa.

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