"Feliz 2026"
O ano que se anuncia não é apenas um calendário que se vira: é um território ainda intacto, feito de possibilidades, quedas e recomeços. 2026 chega como um convite silencioso — desses que não gritam, mas insistem — a recuperar a identidade, a essência e a esperança que tantas vezes deixamos adormecer debaixo do peso das circunstâncias. Não se trata de nos reinventarmos como se fôssemos obras inacabadas à procura de verniz novo; trata-se, antes, de regressar ao centro, ao núcleo do que somos, com a lucidez conquistada pelo caminho já percorrido.
Nascer de novo não é esquecer o que fomos: é, precisamente, usar o que sabemos hoje para não adiar mais o que sabemos que é inadiável. Há decisões que nos esperam, há verdades que exigem ser assumidas, há versões de nós que estão por estrear. Que este ano nos conceda a coragem de não viver em suspenso, de não nos escondermos atrás de pretextos, de não abdicarmos daquilo que precisamos de ser para caber nas expectativas alheias.
Se te perguntarem se és forte, não te sintas obrigado a encenar heroísmos. Sorri e diz a verdade com uma delicadeza que desarma: não, não sou forte — sou frágil como cristal. A força que me sustenta não é arrogância pessoal, é presença divina. Há uma grandeza particular em reconhecer a própria vulnerabilidade: ela abre espaço para que Deus habite, para que a graça se instale onde a nossa razão falha e os nossos joelhos vacilam. É Ele quem te sustém quando o chão se inclina e a vontade fraqueja, quem te ergue quando já não sabes como continuar de pé.
E quando alguém tentar diminuir-te, distorcer-te, apagar-te — não desças ao mesmo lugar estreito. Reage, sim, mas pela elevação. Reza. Rezar não é resignação passiva; é a mais alta forma de resistência tranquila. Quem te procura reduzir fá-lo porque, ao olhar-te, encontrou algo que o expôs às suas próprias pequenas sombras. Não te encarceres na amargura; a oração devolve-te ao lugar de grandeza que se constrói sem ruído.
Que 2026 seja tecido de sonhos pacientes — daqueles que sabem esperar o tempo certo para florir — e de palavras agridoces: suficientemente ternas para não magoar sem necessidade, suficientemente firmes para não deturpar a realidade. A verdade, quando dita com amor, não fere: liberta.
A tua vida está nas tuas mãos; ninguém caminhará por ti. O trilho é teu, a responsabilidade é tua, mas nunca confundas solidão com autonomia: Deus acompanha-te, não escondido, mas em silêncio — um silêncio que não abandona, apenas confia. Nesse silêncio há companhia, há orientação discreta, há uma presença que não precisa de provas para ser real.
Por isso, não te instales no caos nem no rumor constante que embacia o pensamento e turva o coração. O barulho promete distração mas cobra com vazio. Não vivas em permanente procura de pretextos para seres feliz; a felicidade não é uma colecção de objectos ou eventos, é um posicionamento interior, uma forma de estar, às vezes serena, às vezes imperfeita, mas autêntica.
Que o novo ano te encontre inteiro: com cicatrizes que contam história, com fragilidades assumidas, com fé que não se exibe mas ilumina. Que te traga identidade sem máscaras, esperança que persiste mesmo nos dias baços, e uma fé que não seja superstição, mas fundamento — chão onde pousas os pés quando tudo o resto falha.
Que 2026 seja um ano de retorno a ti, de reconciliação com o que és, de coragem tranquila e confiança ativa. Não peças um ano fácil; pede um ano verdadeiro. E que, nesse caminho, descubras que o milagroso não está apenas nos grandes acontecimentos, mas nos gestos quotidianos: na capacidade de recomeçar, de perdoar, de agradecer, de amar apesar de tudo.
Um novo ano não se deseja apenas — constrói-se, passo a passo, com lucidez e coração. Que seja próspero, sim, mas sobretudo pleno de sentido. Que seja o ano em que deixas de adiar a tua própria vida.
Feliz 2026.
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