"A Elegância de Permanecer Inteira"

Há um instante silencioso, quase invisível, em que a vida nos observa por dentro. Não com perguntas diretas, mas com pequenas tentações: a de ceder, a de nos diluirmos, a de nos tornarmos versão conveniente de quem somos. Foi nesse espaço íntimo, entre o que esperam de mim e o que escolho ser, que aprendi a arte mais exigente de todas: a de permanecer inteira.

Não mudei a minha essência. Preservei-a como se preserva uma chama num dia de vento — com as mãos em concha, com atenção, com respeito. O que mudou foi o alcance do meu mundo. Tornei-me mais seletiva, não por frieza, mas por lucidez. Mais calada, não por ausência, mas por profundidade. Descobri que nem toda a presença merece acesso ao coração, e que nem toda a curiosidade merece resposta.

Continuo cordial, porque a gentileza é uma forma elevada de inteligência. Continuo assertiva, porque a verdade não precisa de agressividade para ser firme. Cumprimento quase todos, porque reconheço a humanidade que habita em cada rosto, mesmo naqueles que passam por mim como páginas que não chego a ler por inteiro.

Mas aprendi, também, a fechar portas. Algumas eram como a caixa de Pandora: prometiam mundos e ofereciam tempestades, anunciavam luz e entregavam ruído. Outras fecharam-se sozinhas, como se o próprio tempo, esse arquiteto invisível, tivesse decidido que certos caminhos já não conduziam à minha paz. E eu aceitei. Há despedidas que são, na verdade, gestos silenciosos de amor-próprio.

Hoje caminho com a serenidade de quem já não precisa provar nada. Levo os meus valores como bússola, as minhas crenças como âncora e a minha identidade como morada. Sei que posso falhar, tropeçar, recomeçar — porque sou humana — mas também sei que jamais preciso trair-me para pertencer.

Há um humor subtil em tudo isto: enquanto alguns tentam encaixar-me em moldes pré-fabricados, eu sorrio e continuo a ser obra original, com margens imperfeitas, capítulos intensos e notas de rodapé emocionais que só eu sei interpretar. Não me levo demasiado a sério, mas levo profundamente a sério aquilo que sou.

Se há uma forma de felicidade que reconheço como minha, ela nasce dessa fidelidade silenciosa a mim mesma. Ser a mulher que sempre quis ser — lúcida sem ser cínica, forte sem ser dura, sensível sem ser frágil — tornou-se o meu gesto mais íntimo de coragem.

Porque, no fim, as circunstâncias apenas oferecem o cenário. A personagem, a voz e o sentido da história continuo a escolhê-los eu. Todos os dias. Com elegância. Com consciência. Com verdade.

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