"Entre a Urna, o Café e a Sala Cheia: Um Domingo Meu"
Era o segundo domingo do Tempo Comum. Gosto desta expressão, porque parece dizer que Deus não habita apenas os dias grandes, mas também os dias simples, aqueles que começam sem solenidade e se constroem no gesto pequeno, na escolha discreta, na presença silenciosa.
Era também dia de eleições presidenciais. E, na nossa casa, isso sente-se como um compromisso partilhado. Votar vamos todos — eu, o meu marido, os meus filhos que já têm idade para isso. Só o mais novo fica de fora, ainda criança, ainda a aprender, talvez sem o saber, que um dia também lhe caberá este gesto simples e pesado de significado.
Sou uma mulher que sempre votou. Não por hábito, mas por respeito. Para exercer um direito, sim, mas sobretudo para cumprir um dever. Levo comigo a memória de quem lutou para que hoje possamos escolher, para que a nossa voz não seja um favor concedido, mas uma conquista mantida.
Fui logo de manhã cedo. Queria evitar pessoas, encontros, filas. Queria que aquele momento fosse só meu, limpo de ruído e de pressa. E acertei. Havia uma calma estranha no ar, como se até a democracia, naquele instante, pedisse recolhimento.
Depois, ainda de manhã, fui tomar café com a minha prima materna. Foi simples, leve, quase engraçado. Conversa solta, risos pequenos, aquela familiaridade que não precisa de explicações. Entretanto, a prima paterna ligou-me a convidar para ir também beber café. Expliquei que teria de ser noutra altura. Já estava naquele momento, naquela mesa, naquela presença.
A missa também foi de manhã. E aí vou só eu. A minha família fica em casa — o meu marido, os meus filhos, a nossa cadela, a viverem o domingo à sua maneira, no ritmo da casa, da tarde que se aproxima, do tempo em família. Eu saio, atravesso esse pequeno intervalo entre o mundo doméstico e o espaço sagrado, e entro na igreja como quem muda de respiração.
Vou, em especial, porque participo na catequese de pais. E é importante dizer: é catequese para adultos. Para pessoas que trazem a vida inteira consigo quando se sentam numa cadeira. A sala está cheia. Cheia de mães e pais, de histórias que não se dizem, de perguntas que às vezes só se fazem por dentro. Gosto de olhar em volta e sentir que ninguém ali está por acaso.
Estamos em Janeiro. Um mês de começos contidos, de promessas silenciosas. Neste mês, vou à missa ao domingo. Nos próximos, talvez vá noutros dias. Talvez vá todos. A fé, para mim, não se prende a um dia específico, mas a essa necessidade de, de vez em quando, sair do ruído e voltar ao essencial.
Durante a celebração, dizemos: o amor de Cristo nos une ou é nosso dever, é nossa salvação. Nunca dizemos que vamos receber bênçãos. Vamos participar da Eucaristia. E isso, para mim, muda tudo. Não vou para receber algo. Vou para pertencer. Para me ligar a algo maior do que eu.
E, quando regresso a casa, a tarde já é da família. Do marido, dos filhos, da nossa cadela, do almoço tardio, das conversas cruzadas, do cansaço bom de um domingo vivido. Percebo então que o dia inteiro foi tecido da mesma matéria: escolha e presença.
De manhã, escolho não me afastar da minha responsabilidade como cidadã. Mais tarde, escolho não me afastar da minha responsabilidade como crente. E, pelo meio, escolho simplesmente estar — com a minha família, com as minhas raízes, com quem sou.
Neste segundo domingo do Tempo Comum, descubro que a grandeza não esteve nos acontecimentos, mas na forma como os habitei. Um dia comum, sim. Mas inteiro.
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