"Parresia"

Há palavras que incomodam porque iluminam demasiado. “Pecado” é uma delas. Pesa, inquieta, fere o ouvido moderno que prefere a anestesia doce do “não faz mal”. Contudo, a tradição cristã nunca identificou pecado com o simples facto de nomear a verdade; pecado é sempre aquilo que destrói a caridade, aquilo que fecha à graça, aquilo que nos desvia do Amor. Entre o silêncio cúmplice e a acusação ferina, existe um território mais exigente e mais adulto: o da verdade dita com misericórdia, o da lucidez que não abdica da ternura.

Falar das atitudes de alguém — as suas falhas, incoerências, falsidades ou mentiras — é sempre um exercício que requer uma precisão interior: o que me move? Se me move o desejo de humilhar, vingar-me, denegrir ou espalhar a má-fama, entro no campo da maledicência, da difamação e da calúnia — realidades espiritualmente corrosivas. Se, porém, me move o desejo de curar, esclarecer, proteger a justiça, educar para a responsabilidade ou simplesmente dar nome à dor para que ela deixe de me envenenar por dentro, então já não estamos no mesmo território moral. A intenção não é um detalhe; é o centro do discernimento cristão.

Jesus nunca pediu que fingíssemos não ver. Não canonizou a ingenuidade, nem confundiu caridade com amnésia. Chamou “sepulcros caiados” aos que viviam de fachada, denunciou hipocrisias com uma frontalidade que ainda hoje nos desinstala, e, ao mesmo tempo, olhou cada pessoa para além do erro, abrindo-lhe sempre possibilidade de recomeço. Ele não nos ensinou a varrer o real para debaixo do tapete piedoso: ensinou-nos a dizer a verdade em amor. A pedagogia evangélica é clara e exigente: corrigir fraternalmente, primeiro em privado, depois com testemunhas, nunca para destruir, mas para ganhar o irmão. A correção cristã não é uma pedrada, é uma mão que chama para fora do labirinto.

Há, pois, nuances essenciais. Dizer “isto foi falso”, “estas palavras não foram verdadeiras”, “esta atitude magoou-me” não constitui, em si, pecado: constitui nomeação do real. Não é a constatação que fere a caridade; é o veneno com que a constatação é embebida. Entre a denúncia violenta e o silêncio hipócrita abre-se a via régia da parresia — a coragem de falar com clareza, sem máscaras, com a serenidade de quem busca a verdade e não a vitória. Fingir que nada aconteceu pode ser confortável, mas é frequentemente uma forma disfarçada de desistência de nós mesmos. A fé cristã não pede fingimento; pede responsabilidade.

O mesmo se aplica à educação dos filhos e às relações familiares. Dizer: “o quarto ficou por arrumar”, “não cumpriste a tua parte”, “esta atitude não é correta” não é um pecado: é educação para a verdade do real. A omissão sistemática da palavra justa instala o caos e confunde os limites. O amor que tudo desculpa não é o amor que tudo permite; é o amor que tudo espera e, justamente por isso, convida ao crescimento. Nomear o erro não é condenar a pessoa; é libertá-la da mentira que a empobrece. A pedagogia cristã sempre distinguiu o ato da dignidade irrenunciável de quem o pratica.

E quando falamos do que sofremos? Há dores que pedem voz para não apodrecerem em silêncio. Partilhar um acontecimento doloroso — mesmo sem nomear pessoas — pode ser um gesto terapêutico e espiritual: cura-se também falando. Contudo, há uma linha subtil: se a fala se transforma em arma, se alimenta ressentimento e prolonga o mal, ela deixa de curar e passa a contaminar. O cristianismo convida a um movimento mais alto: transformar a ferida em conhecimento, o lamento em sabedoria, a mágoa em oração. Perdoar não é esquecer o acontecido, é recusar que ele dite o futuro.

Jesus convida a uma disciplina do coração antes de uma disciplina da língua. O Evangelho não nos pede que calemos a injustiça, mas que vigiemos o tónus interior com que a nomeamos. É possível dizer “foi mentira” sem desumanizar quem mentiu; é possível afirmar “foi falsidade” sem reduzir o outro ao seu gesto mais pobre. A verdade, quando é cristã, nunca é uma lâmina fria: é uma luz quente que revela e ao mesmo tempo convida. Corrigir não é esmagar; é chamar para fora — exactamente o sentido original de “exortação”.

Não é pecado ver o que é falso. Pecado é querer menos para o outro do que a sua conversão possível. Não é pecado dizer a verdade com cuidado. Pecado é usar a verdade como pedra. Não é pecado reconhecer a própria dor. Pecado é cultivá-la como bandeira. A vida espiritual pede esta arte fina: unir lucidez e compaixão, firmeza e ternura, justiça e misericórdia. Deus não nos pede silêncio cúmplice; pede-nos uma palavra justa, limpa, sem veneno, dita ao ritmo da caridade.

Por isso, sim: podes dizer que uma atitude foi de falsidade, que determinadas palavras foram mentiras. O essencial é o modo — e o motivo. Que a palavra não seja descarga de amargura, mas lugar de verdade; que não seja arma, mas caminho; que não seja condenação, mas apelo. A maturidade espiritual acontece quando conseguimos afirmar, ao mesmo tempo: “isto não foi bem” e “tu vales mais do que isto”. Aí, a verdade deixa de ser acusação e torna-se promessa.

Entre o silêncio que oprime e o grito que fere, o Evangelho propõe a via estreita e luminosa da palavra responsável. Dura como a pedra, não; firme como a rocha, sim. Porque a caridade sem verdade é sentimentalismo, e a verdade sem caridade é crueldade. E o cristianismo, no seu coração mais puro, chama-nos precisamente a essa síntese difícil e bela: ver claro, falar com cuidado, amar até ao fim.


"Humana"

Há palavras que nos atravessam como relâmpagos. Outras, mais pacientes, vão-nos esculpindo por dentro. Entre ambas, vou-me reconhecendo: humana, crente, em construção. Falar de pecado, de verdade, de mentira, de caridade e de limites não é um exercício de laboratório — é o chão concreto onde a fé se confronta com a vida real. E é aí, precisamente aí, que o Evangelho se torna carne: no lugar onde a teoria e a fragilidade se encontram sem disfarces.

A tradição cristã nunca confundiu pecado com o simples facto de dizer a verdade. Pecado é aquilo que quebra a caridade, que escolhe o egoísmo, que transforma o coração num território fechado. Entre o silêncio cúmplice e o ataque destrutivo existe um caminho mais exigente: o da parresia — a coragem de falar com clareza, mas com amor. Jesus não pediu que fingíssemos não ver. Denunciou hipocrisias, chamou as coisas pelo nome, corrigiu os discípulos, mas sempre para salvar, nunca para esmagar. A correção fraterna, tão sublinhada pelo Evangelho, é um ato de amor: primeiro em privado, depois com testemunhas, sempre com o desejo de ganhar o irmão, não de o vencer.

Mas eu sou humana. Sei o que é ideal — e sei o que sinto. Quando a mentira não é episódio mas hábito, quando a falsidade reaparece em ondas, há momentos em que a palavra sai antes de eu a poder aparar: “é mentirosa”. Sai, veloz, quase instintiva, fruto de observações repetidas, de dores que não se inventam. Não nasce para denegrir — nasce para não falsear a realidade interior. Os filtros, às vezes, parecem gastos. E, contudo, não é aí que termina o caminho espiritual; é justamente aí que ele começa.

A moral cristã é subtil: distingue entre tentação, pensamento e consentimento. O primeiro impulso não é o pecado; é o terreno de combate. O que faço com esse impulso é o que conta. Posso ruminar, afiar adjetivos, alimentar a amargura — ou posso transformar essa constatação em oração, em discernimento, em decisão de não reproduzir o mal que vi. Jesus não me pede que deixe de sentir; pede-me que não fique prisioneira do que sinto. Pediu vigilância do coração antes de vigilância da língua, porque é do interior que brotam as palavras que curam ou ferem.

Eu observo muito. Sou introvertida: falo pouco; penso muito. Quando há afinidade, a palavra desabrocha; quando não há, recolho-me. Fui-me construindo com esforço: reeduquei hábitos, combati impulsos, olhei qualidades alheias e disse para mim: “eu quero ser assim”. Houve luta, houve suor, houve batalhas que só Deus conhece. Aprender preenche-me — não por vaidade, mas porque me sinto chamada a crescer. Aproximo-me de quem sabe mais, não para competir, mas para beber. Sou uma obra em curso: nada em mim foi entregue pronto.

E é justamente por amar — amar muito, amar mesmo — que a mentira dói. Amar com lucidez, sem ingenuidade e sem cinismo. A caridade cristã não é cegueira; é luz que vê e, vendo, escolhe não desistir. Quando digo que uma atitude foi falsa ou uma palavra foi mentira, constato um facto. O pecado começa quando faço da palavra uma arma, quando desejo ferir, humilhar, expor, vencer. Quando o que me move é curar, clarificar, educar, proteger a justiça ou simplesmente dar nome à dor para ela não me corroer, deslocamo-nos para outro território espiritual.

A Igreja ensina — e ensina bem — que é preciso unir verdade e misericórdia. A verdade sem amor torna-se crueldade; o amor sem verdade torna-se permissividade vazia. Jesus sempre separou o ato da pessoa: condenou o pecado e salvou o pecador. É essa a arte difícil a que sou chamada: dizer “isto foi mentira”, “isto magoou-me”, sem reduzir ninguém ao seu erro; afirmar o real, mas abrir espaço à conversão possível. Não é cristão pactuar com a mentira. Também não é cristão transformar-se em acusador permanente.

Há ainda outra dimensão: a cura pela palavra. Partilhar o que sofri, mesmo sem nomes, ajudou-me a não adoecer por dentro. A fala organiza a dor, evita o ressentimento silencioso. Pode ser caminho de libertação — desde que não se transforme em vingança disfarçada. Quando o relato deixa de curar e começa a saborear o mal, afasta-se do Evangelho. A fé pede-me esta disciplina suave: usar a verdade para iluminar, não para queimar.

Sim, às vezes os meus filtros falham. Às vezes a palavra sai crua, rápida, indomada. Sou humana: não nego. Mas também sou uma peregrina da depuração. Recomeço. Peço perdão. Retifico o tom. Aprendo. A introversão ensina-me a pensar; o humor salva-me do endurecimento; o amor impede-me de desistir de quem erra — e de mim mesma quando erro.

No fundo, a fé cristã chama-me a esta síntese:
ver com nitidez, falar com cuidado, amar com firmeza.
Não fingir que o mal é bem, nem transformar a verdade em pedra.
Chamar cada coisa pelo nome — e chamar cada pessoa à sua dignidade maior.

Deus não me pede perfeição sem falhas; pede-me fidelidade em crescimento. Não me pede silêncio cúmplice; pede-me palavra responsável. Não me pede que deixe de sentir; pede-me que consagre o que sinto. E é nesse caminho de metanoia — mudança profunda do coração — que me sei inteira: lúcida, frágil, trabalhada, amada e a caminho.

E, apesar de tudo, permaneço nisto com uma certeza serena:
aprendo, amo, depuro — e recomeço.


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