"Mais do mesmo."

 Agradeço por tudo, sabe? Agradeço à senhora que decidiu, num belo dia, que falar mal de mim seria seu passatempo favorito. Eu era uma pessoa incrível, bestial até, mas de repente, na sua narrativa, virei uma besta. Incrível a rapidez com que isso aconteceu! Agradeço sinceramente por todas as suas palavras venenosas.

Agradeço também pelos comentários maldosos sobre uma criança de apenas oito anos. Sim, aquela criaturinha que não fazia nada além de gostar de você. Ah, como foi tocante a sua habilidade de transformar um simples afeto infantil em um motivo para fofocas.

E como não mencionar a faca? Agradeço pela faca, aquela que você colocou nas minhas costas com tanto carinho. Foi um gesto que eu jamais esquecerei. Agradeço por cada história difamatória que você inventou sobre mim. Sua criatividade realmente não tem limites!

O tratamento que deu ao meu filho também merece um agradecimento especial. A forma como você o isolou, o colocou de lado... foi um verdadeiro exemplo de carinho e consideração. Agradeço por toda a dor e sofrimento que causou a ele e a mim. Foram lições valiosas.

Sim, agradeço por tudo de bom que nos aconteceu. E, claro, agradeço por todas as lições aprendidas. Porque, no fim das contas, aprendemos muito. Aprendemos a reconhecer pessoas como você de longe, a nos proteger e, principalmente, a seguir em frente, mais fortes e mais sábios.

Obrigada por ser essa professora tão dedicada na escola da vida. Sem você, talvez nunca tivéssemos descoberto a verdadeira extensão da maldade humana. Portanto, meu sincero agradecimento por tudo isso e mais um pouco. Que jornada inesquecível você nos proporcionou!



O meu agradecimento, pode usar e abusar agradecer nunca é demais. Já que a senhora insiste em um agradecimento por tudo o que fez. Aqui está. Sou educada, espero que esteja muito satisfeita com tudo o que fez. E quanto às mensagens e email, espero ter satisfeito o pedido e a curiosidade, como disse num texto anterior não me ofenderam em nada, podem continuar e sigam o conselho, aproveitem que eu arquei com as culpas. Sorriam muito, sejam como a senhora, falsos, hipócritas, dissimulados e mentirosos, inventem muito. 

Com muito carinho 

TeceHistorias 

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 Nota de Autora

Este texto foi publicado em 21 de junho de 2024.

Estamos em 2026.

O tempo passou e fez aquilo que o tempo faz melhor: transformou.

Na altura em que escrevi este texto, doeu.

Não vale a pena romantizar.

Foi uma facada.

Hoje não é.

Hoje é cicatriz.

E as cicatrizes têm uma característica curiosa: já não sangram, mas continuam a ensinar anatomia.

Reler este texto agora não me desperta raiva, tristeza ou vontade de reabrir qualquer assunto.

Desperta sobretudo conhecimento.

Porque, goste-se ou não, há lições que só entram quando a vida decide abandonar a pedagogia suave.

Este texto marcou um antes e um depois na forma como desempenho o papel de encarregada de educação.

Mudou profundamente a forma como me relaciono com instituições, profissionais e contextos escolares.

Não me tornou desconfiada.

Tornou-me observadora.

Não me tornou fria.

Tornou-me seletiva.

Não endureceu o meu coração.

Apenas ensinou a minha porta a ter fechadura.

Continuo a acreditar nas pessoas.

Mas já não confundo simpatia com vínculo.

Disponibilidade com proximidade.

Cordialidade com amizade.

Foi uma aprendizagem útil.

Cara, por vezes.

Mas útil.

Hoje compreendo que nem todas as pessoas ocupam o mesmo lugar relacional umas para as outras. E que grande parte dos conflitos humanos nasce precisamente da diferença entre perceção e realidade.

Isso não faz de ninguém herói.

Nem vilão.

Faz das pessoas… pessoas.

Complexas, limitadas, contraditórias e, muitas vezes, alheias ao impacto que têm na vida umas das outras.

O texto permanece neste espaço porque apagar o passado não altera o passado.

Além disso, os textos antigos têm uma função importante: recordam-nos de quem fomos e mostram-nos o caminho percorrido.

Este é um desses textos.

Não me define.

Mas pertence-me.

E, olhando para trás, reconheço-lhe utilidade.

Há aprendizagens que preferíamos não ter.

Mas, uma vez adquiridas, tornam-se ferramentas.

Esta foi uma delas.

No fim, ficou uma lição simples:

é possível proteger a paz sem perder a educação.

Colocar limites sem perder a humanidade.

E seguir em frente sem endurecer o coração.

Embora, admito, hoje ele escolha muito melhor quem deixa entrar.

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Este texto é radicalmente diferente dos anteriores. Se os outros textos eram predominantemente filosóficos, reflexivos ou metalinguísticos, este pertence ao domínio da escrita catártica e da ironia agressiva. É, do ponto de vista da análise do discurso, o mais emocionalmente carregado dos textos que apresentaste.


AVALIAÇÃO GLOBAL

CritérioAvaliação
Correção gramatical8,8/10
Riqueza lexical8,5/10
Coesão textual8,9/10
Literariedade8,7/10
Intensidade emocional10/10
Ironia9,8/10
Eficácia retórica9,5/10
Sofisticação argumentativa7,9/10
Complexidade sintática7,8/10
Originalidade expressiva9,1/10

Classificação global: 8,9/10


GÉNERO TEXTUAL

O texto é híbrido.

Pode ser classificado como:

  • carta aberta;
  • texto catártico;
  • ensaio pessoal;
  • discurso de denúncia;
  • monólogo irónico.

A função principal não é informar.

É reconfigurar simbolicamente uma experiência de injustiça.


ANÁLISE DO TÍTULO

"Mais do mesmo."

Título curto.

Elíptico.

Sugere:

  • repetição do comportamento;
  • Indignação 
  • fadiga emocional;
  • previsibilidade do dano.

Tem forte valor pragmático.

Funciona como enquadramento interpretativo.


ANÁLISE RETÓRICA

O grande recurso do texto é:

ironia

Na realidade, quase todo o texto funciona por antífrase.

A autora diz:

"agradeço"

mas quer significar:

"condeno"

Isto é uma figura retórica clássica.


Repetição anafórica

A expressão:

"Agradeço..."

repete-se inúmeras vezes.

Funções:

  1. criar ritmo;
  2. aumentar tensão;
  3. reforçar acusação.

A repetição transforma o texto num quase-litúrgico "anti-agradecimento".


ANÁLISE LITERÁRIA

Figura dominante: ironia trágica

O texto constrói um contraste constante entre:

linguagem cortês

e

conteúdo hostil.

Exemplo:

"Com muito carinho"

A expressão é evidentemente irónica.


Metáfora

A faca nas costas

Metáfora universal da traição.

Muito eficaz.

Fácil identificação emocional.


Hipérbole

Exemplo:

"Seu passatempo favorito"

Amplificação expressiva.

Não pretende precisão factual.

Pretende intensidade afetiva.


ANÁLISE LINGUÍSTICA

Registo

Misto.

Oscila entre:

  • coloquial;
  • literário;
  • argumentativo.

Essa oscilação produz autenticidade emocional.


Léxico

Campos dominantes:

Violência simbólica

  • venenosas
  • difamatória
  • falsa
  • hipócrita
  • mentirosa

Traição

  • faca
  • costas
  • isolamento

Educação/civilidade

  • agradecimento
  • educada
  • carinho

A tensão entre estes campos é central.


GRAMÁTICA E NORMA

Há algumas observações.


Português 

O texto mistura normas.

Exemplos:

Brasil

  • você
  • criança de apenas oito anos
  • e-mail

Portugal

  • arquei com as culpas
  • senhora

Se o objetivo for uniformização para português, convém rever.


Pontuação

Globalmente correta.

Alguns períodos poderiam ser reduzidos para aumentar impacto.


SINTAXE

Predomina a parataxe:

frases coordenadas.

Isto produz:

  • rapidez;
  • oralidade;
  • intensidade emocional.

Ao contrário dos teus textos mais filosóficos, aqui a sintaxe acelera.

Isso é compatível com estados emocionais intensos.


ANÁLISE PRAGMÁTICA

Este texto não apenas comunica.

Executa atos discursivos:

  • acusa;
  • expõe;
  • denuncia;
  • devolve simbolicamente a dor.

Há um fenómeno importante:

o texto procura inverter relações de poder.

Quem sofreu fala.

Quem feriu torna-se objeto do discurso.


ANÁLISE PSICOLÓGICA DO DISCURSO


Emoção dominante

Indignação.

Não tristeza.

Nem medo.

Indignação moral.


Emoções secundárias

  • mágoa;
  • desilusão;
  • ressentimento

Mecanismo psicológico central

Ironização da dor.

A ironia funciona frequentemente como:

  • defesa;
  • elaboração;
  • recuperação de agência.

Transforma sofrimento em linguagem controlada.


PSICANÁLISE

Freud

Muito claramente aparece:

formação reativa

Exteriormente:

agradecimento.

Interiormente:

acusação.


Sublimação

Em vez de agressão:

escrita.

Isto é relevante.

O conflito é transformado em narrativa.


Luto relacional

O texto sugere perda não apenas da relação.

Mas da imagem da relação. 


SOCIOLOGIA

Tema central:

reputação

A dor descrita não é apenas privada.

É social.

Fala-se de:

  • boatos;
  • difamação;
  • imagem pública.

Isto toca no capital simbólico:

a forma como os outros nos veem.


PERFIL DISCURSIVO 

O texto constrói uma voz que parece:

  • altamente sensível à injustiça;
  • muita honestidade 
  • lealdade
  • verbalmente competente;
  • capaz de ironia sofisticada;
  • emocionalmente ferida mas funcional;
  • orientada para dignidade e reconhecimento.

Há um dado particularmente interessante:

Apesar da intensidade emocional, o texto não recorre a insulto bruto.

Recorre a ironia.

Isto revela controlo discursivo. 


COMPARAÇÃO COM OS TEUS OUTROS TEXTOS

Se compararmos os quatro textos:

Texto sobre factos e boatos

→ ética e justiça.

Texto sobre a paz

→ reconstrução interior.

Texto sobre o inferno das expectativas

→ maturidade relacional.

Este texto

→ ferida em estado mais próximo do acontecimento.

É o texto mais quente emocionalmente. 

Os outros já transformam experiência em filosofia.

Este ainda preserva forte carga afetiva. Este preserva a dor da injustiça.


OBSERVAÇÃO  FINAL

Ponto forte:
capacidade de utilizar ironia como mecanismo literário e psicológico.

Ponto menos forte:
a intensidade emocional, em certos momentos, aproxima o texto da catarse mais do que da reflexão universal.

Isso não é um defeito literário.

Mas marca a diferença entre:

  • escrita terapêutica;
  • ensaio filosófico.

CONCLUSÃO

Este texto é menos filosófico do que os teus textos posteriores, mas é provavelmente o mais importante do ponto de vista evolutivo do discurso. Mostra o sofrimento!

Porque mostra o momento em que a linguagem ainda está próxima da ferida.

E há uma diferença enorme entre escrever sobre uma dor e escrever a partir dela.

Este texto parece estar mais perto da segunda situação. 

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Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).

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