"Só agora sei o valor da paz: uma epifania com café e silêncio"

 Só agora, com os cabelos já familiarizados com o vento das experiências e a alma menos ansiosa por respostas imediatas, é que sei valorizar — com a reverência de quem descobre uma relíquia enterrada no quintal da infância — a paz. A paz de espírito. A paz de não ser incomodada. A tranquilidade de fechar os olhos sem receio de ser puxada por vozes alheias à minha consciência. E, sim, confesso: há uma felicidade mansa, quase clandestina, em não ser permanentemente solicitada, interrompida, invadida. É uma alegria que não grita, mas que se manifesta na forma de um bocejo sincero, de um café morno às dez da noite, de uma gargalhada que ecoa apenas dentro da cabeça, sem notificação sonora. Há uma liberdade inaudita em não ter que explicar-me, justificar-me, defender-me de ataques que nunca pedi para receber. De uns meses para cá, fui-me afastando. Não com raiva, não com mágoa — apenas com lucidez. E descobri que há amor próprio que só floresce no silêncio.

Durante meses — talvez, parecesse décadas — cultivei o hábito social de responder a mensagens que me esvaziavam, de sorrir a quem me feriu só para não causar desconforto (a eles, claro, nunca a mim), de explicar-me até à exaustão como se viver fosse um debate constante, um tribunal onde eu era simultaneamente ré, juíza e plateia.

Mas deixei. Larguei. Soltei.

E soube, com o espanto de quem reconhece uma música que já conhecia antes de nascer, que a paz não faz barulho. Ela chega descalça, não exige atenção, não toca à campainha nem manda emojis a pedir resposta. Ela simplesmente... está. E quando a sentimos, o corpo inteiro respira como quem saiu debaixo de água.

Não me interpretem mal. Gosto de pessoas — gosto genuinamente. Adoro conversas com alma, partilhas com significado, olhares que escutam mais do que interrompem. Mas há pessoas e... "pessoas". Há as que iluminam, e as que te cobram eletricidade. As que te querem bem, e as que só estão bem quando tu estás mal. Nunca percebi essa obsessão pelo desequilíbrio: como se houvesse um prazer oculto em ver-nos cair, como se a insegurança alheia se alimentasse da nossa instabilidade.

É uma verdade difícil de aceitar: nem toda a gente está feliz por te ver em paz. Há quem não saiba viver sem drama, sem tensão, sem o teatro do conflito. Mas eu cansei da peça. Larguei o guião. Aplausos para quem fica — eu saí pela porta lateral, de mansinho, e fui viver o meu intervalo.

A psicologia ensina-nos que o auto-cuidado começa por saber dizer “não”. A filosofia convida-nos a distinguir o que depende de nós do que não depende. A sociologia mostra-nos que os laços sociais podem ser libertadores... ou aprisionadores. E a religião, ao menos na sua vertente contemplativa, fala-nos da paz como estado de graça. Pois bem: hoje compreendo essas disciplinas de forma mais íntima, não como teorias abstractas, mas como realidades vividas. O meu corpo é o laboratório. A minha alma, o observador.

E, surpreendentemente, ao afastar-me das expectativas dos outros, fui-me encontrando. Eu nunca precisei de palmas. Nunca procurei validação. Mas ficava  inquieta pelo facto de não responder de imediato. Agora não me inquieta! Não é frieza; é selecção natural. Quem é realmente meu, entende. E quem não entende... talvez nunca tenha sido.

Não sou santa. Tenho as minhas contradições. Ainda resmungo com a falta de educação, irrito-me com burocracias e falo sozinha no supermercado, quando sou obrigada a ir às compras. Mas há algo que mudou cá dentro: deixei de permitir que os outros conduzam o meu estado emocional. Já não entrego as chaves do meu sossego a quem não sabe o que fazer com elas.

Não me tornei eremita. Apenas ganhei critério. Troquei o “tenho que” pelo “quero”. E, mais importante ainda, aprendi a querer o que me faz bem. Agora, quando alguém me tenta arrastar para um conflito, olho com compaixão — como se visse uma criança a fazer birra porque não entende o valor do silêncio. Sorrio. E sigo. Nem sempre com flores no caminho, mas com menos espinhos.

A paz, aprendi, não é um destino. É uma prática. E cada vez que escolho o silêncio ao invés da disputa, o descanso ao invés da correria, a ausência ao invés da presença tóxica... estou a reafirmar a minha fé nessa paz. Que não se vê, mas sente-se. Que não se impõe, mas conquista-se.

E sabem que mais? Sou mais feliz assim. Não porque esteja tudo perfeito, mas porque me sinto inteira, mesmo nos dias partidos.

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Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).

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