Mensagens

"Não há mistério nenhum na forma como escrevo"

Há quem procure uma explicação escondida na forma como escrevo. Porque digo “tu” . Porque digo “nós” . Porque faço perguntas. Porque começo muitas vezes com um “sabias?”, um “sabes?” ou um “talvez”. Porque falo directamente com quem está a ler, como se estivesse sentada diante dessa pessoa, numa mesa, numa conversa demorada, em vez de escrever para uma multidão anónima. E talvez seja melhor esclarecer isto de uma vez: não há mistério nenhum. Não existe código. Não existe mensagem secreta. Não estou necessariamente a escrever para uma determinada pessoa só porque utilizo a segunda pessoa. Não estou a transformar cada texto numa indirecta. E muito menos tenho a pretensão de conhecer a vida de quem lê. Estou simplesmente a escrever como um ser humano fala com outro ser humano. E faço-o deliberadamente. Quando digo “tu” , estou a aproximar. Quando digo “nós” , estou a incluir-me. Quando digo “eu” , assumo a experiência como minha. São três lugares diferentes dentro da mesma conversa. O “eu...

"CSI FACEBOOK"

Há fotografias que uma pessoa publica sem imaginar que está, na realidade, a entregar ao Facebook material suficiente para uma investigação criminal de longa duração. Eu publiquei uma fotografia de biquíni, numa piscina, durante uns dias de descanso, e escrevi: «Voltei mais descansada, branca e com mais curvas.» Na minha cabeça, isto era uma frase sobre as minhas férias . Na cabeça de algumas pessoas, aparentemente, era o primeiro capítulo de uma série documental: CSI Facebook — Unidade Especial Curvas, Biquínis, Piscinas, Homens Imaginários e Vida Alheia. Começaram as perguntas. Quem pagou? Quem me levou? Com quem fui? Havia algum homem? De onde vieram as curvas? Como é que uma mulher de 47 anos ainda se atreve a usar biquíni? Quem financia a minha vida? E, como se isso não bastasse, apareceu ainda a modalidade mais avançada da investigação: reconhecimento de espaços. Reconheceram o quintal. Reconheceram a piscina. Reconheceram o local. E aqui preciso de fazer uma...

"Eu não sou aquilo que disseram de mim"

Lamento muito, mas há uma coisa que já não faço: acreditar automaticamente naquilo que dizem de mim. Não porque me considere acima da crítica. Não porque ache que não erro. Não porque tenha atingido alguma espécie de perfeição moral que me permita dispensar o olhar dos outros. Muito pelo contrário. Aprendi a escutar. Aprendi a rever-me. Aprendi a reconhecer quando erro, quando magoo, quando me precipito, quando interpreto mal, quando poderia ter feito melhor. Mas existe uma diferença imensa entre escutar uma crítica e entregar-lhe a autoridade para definir quem somos . E essa diferença custou-me anos a compreender. A pessoa que sou hoje não apareceu por geração espontânea. Não nasceu pronta. Não foi construída pela aprovação alheia. Foi uma vida inteira de investimento. Foi feita de quedas, escolhas, perdas, leituras, silêncio, perguntas, erros, recomeços, pessoas que me ensinaram pelo amor e outras que me ensinaram precisamente pelo contrário. Foi feita daquilo que me aconteceu, mas s...

"A menina que fui e a mãe que hoje sou"

A minha filha encontrou as minhas notas do período escolar. E eu confesso: foi uma pequena viagem no tempo. Ali estavam elas, referentes ao ano lectivo de 1997/98 , quando eu ainda era apenas uma rapariga a aprender a ser pessoa, muito antes de imaginar a mulher, a mãe e tudo aquilo que a vida haveria de fazer de mim. As classificações? Máximas. Sim, máximas. Parece que, academicamente, a coisa estava muito bem encaminhada. Mas depois chegam as apreciações dos professores. E aí… bom. Aí encontro-me. Talvez até demasiado. Porque há coisas que o tempo não apaga; apenas nos ensina a interpretá-las com maior ternura. Numa das apreciações pode ler-se: “Participou manifestando desinteresse nas actividades que foram programadas.” Noutra: “Teve bom aproveitamento em todas as áreas do programa, mas faz os trabalhos imperfeitos para acabar rapidamente.” Até aqui, confesso, começo a reconhecer uma certa familiaridade. Mas depois vem a parte verdadeiramente extraordinária: “Conhece bem todas as re...

"A lei que talvez devêssemos ensinar primeiro"

Há uma pergunta que me acompanha há muito tempo: porque é que passamos anos a aprender as leis que governam a matéria e tão pouco tempo a aprender as leis que governam o pensamento? Na escola estudamos o universo com um rigor admirável. Descobrimos que a natureza obedece a princípios extraordinariamente elegantes e que o mundo não funciona ao sabor das nossas opiniões. Aprendemos a observar, a medir, a experimentar e a demonstrar. Aprendemos Lavoisier, Newton, a Termodinâmica, Kepler, Pascal, Ohm, Mendel e tantos outros. E ainda bem. Porque compreender estas leis é compreender um pouco melhor a ordem escondida do universo. Mas existe uma lei moderna que raramente entra numa sala de aula e que talvez devesse ser ensinada logo no primeiro ciclo: a Lei de Brandolini . Não é uma lei da Física nem da Química. É uma lei da inteligência humana. Antes de lá chegar, vale a pena recordar aquilo que tantas gerações aprenderam. As leis que explicam o mundo Lei de Lavoisier — Conservação da massa “...

"Fui Dar uma Vacina ao Meu Filho e Saí de Lá com a Família Quase Toda Revistada"

Há dias em que uma pessoa sai de casa com uma missão simples. Hoje era um desses dias. Levar o meu filho, de 10 anos, à vacina. Nada de extraordinário. Entrámos no centro de saúde com a serenidade de quem vai cumprir uma obrigação perfeitamente normal. Eu, o meu filho e a minha filha, que tem 23 anos e aparentemente considera que acompanhar o irmão a uma vacina é uma excelente oportunidade para exercer funções de irmã mais velha e picá-lo antes da enfermeira . A enfermeira abriu a porta e disse: — Podem entrar todos. Excelente. Entrámos. O meu filho sentou-se. A minha filha começou imediatamente a cumprir a sua missão civilizacional: — Então? Estás com medo? Eu olhei para ela. Ela olhou para o irmão. O irmão olhou para nós as duas com aquela expressão muito própria de quem percebeu que, afinal, o perigo não vinha da agulha. Vinha da família. A enfermeira abriu a ficha. Olhou para o computador. Depois olhou para mim. Fez aquele silêncio clínico que nunca anuncia nada...

"Não nasci a saber ser mãe. Aprendi a escutar."

Recebi várias mensagens de mães preocupadas com o regresso às aulas. Algumas contam-me que, à medida que agosto chega ao fim, os filhos começam a dizer que não querem voltar à escola. Outras falam de dores de barriga, dificuldade em dormir, irritabilidade, choro ou daquela mudança subtil de comportamento que uma mãe aprende, com o tempo, a reconhecer antes de a criança conseguir explicar o que está a sentir. E talvez seja importante começar por aqui: nem sempre é manha. Nem sempre é preguiça. Nem sempre é falta de vontade. E, sobretudo, nem sempre uma criança consegue dizer: “Estou ansiosa com aquilo que vai acontecer.” O corpo pode dizer aquilo que as palavras ainda não conseguem. Uma dor de barriga pode ser uma preocupação. Uma dificuldade em adormecer pode ser antecipação. Uma irritabilidade aparentemente desproporcionada pode esconder medo. Uma criança pode até afirmar que não quer ir para a escola quando, no fundo, aquilo que teme não é a escola inteira, mas uma coisa muito concre...