"Viajante da impermanência"

Todos os dias acordo com o peso e a leveza de saber que estou de passagem.

Que cada suspiro, cada encontro, cada toque, é um empréstimo da eternidade que não me pertence.
E, no entanto, agarro-me à vida como se pudesse segurá-la nas mãos, como se o tempo pudesse ser detido, como se os que amo pudessem permanecer para sempre ao meu lado.

Mas nada permanece.
Nunca permaneceu.
Somos viajantes, intrépidos e frágeis, atravessando o espaço e o tempo, e a verdade é cruel: a vida não nos dá garantias, não nos oferece contratos permanentes.
A vida nos ensina, todos os dias, que tudo é efémero — e a maior lição está naquilo que mais nos custa aceitar.

Quando alguém querido parte — seja pela morte, seja pela distância, seja pelo inevitável desencontro — o mundo parece perder a forma.
O coração aperta-se, a garganta queima, os olhos choram silenciosos e a alma sente-se despedaçada.
A mente compreende, mas o coração insiste em negar.
E é nesse conflito — entre a razão e a dor, entre o amor e a ausência — que aprendo sobre o desapego, sobre o valor do presente, sobre a profundidade do amor verdadeiro.

O amor constrói-se lentamente, tijolo a tijolo, gesto a gesto, palavra a palavra.
Mas também pode morrer lentamente, silencioso, discreto, quase imperceptível, até que um dia percebemos que a chama se apagou, e nada resta além do eco do que fomos.
E é esse eco que me lembra que cada momento importa.
Cada abraço, cada olhar, cada palavra sincera — porque amanhã, talvez, não haja oportunidade.

É doloroso aceitar que aqueles que fizeram parte da minha história podem, num instante, deixar de estar presentes.
E é ainda mais doloroso perceber que não posso segurá-los.
Que o apego, a dor e a saudade não lhes devolvem a permanência.
Que o que me resta é a memória, o sentimento, o gesto que ofereci — e a consciência de que só posso agir no agora.

Guardo cada abraço, cada sorriso, cada gesto de carinho.
E aprendo, a cada despedida, que perdoar é libertar-se.
Que guardar mágoa é amarrar-se a correntes invisíveis.
Que adiar um pedido de perdão ou um “eu te amo” é desperdiçar a chance de tocar a eternidade em alguém.

Somos todos chamados à impermanência.
A natureza nos mostra isso: flores que desabrocham e murcham, estações que passam, rios que seguem sem nunca regressar, o sol que nasce e declina.
Mas teimamos em nos achar eternos.
Em nos apegar ao que é frágil, passageiro, efémero.
Em tentar deter o tempo com a nossa vontade.

O medo paralisa.
O apego nos mantém cativos.
O receio do que os outros pensarão impede que sejamos verdadeiramente livres.
Temos medo da morte e, por isso, esquecemos de viver.
Temos medo da perda e, por isso, deixamos de nos entregar.

Mas a vida, em sua honestidade brutal, exige presença.
Exige que amemos, que perdoemos, que abracemos, que digamos aquilo que precisamos dizer — hoje, não amanhã.
Porque amanhã talvez não exista.
Porque a efemeridade não espera.
Porque o tempo é irreversível e cada instante é precioso.

Aprendo todos os dias que ser leve não significa ignorar a dor.
Significa caminhar com ela, aceitá-la, e ainda assim escolher amar.
Escolher a entrega consciente, mesmo sabendo que haverá perda.
Escolher olhar nos olhos de quem amamos e, sem reservas, deixar que nos vejam por inteiro.
Escolher perdoar, mesmo quando o coração está ferido, mesmo quando dói mais do que gostaríamos de suportar.

Hoje posso ser inteira.
Hoje posso abraçar, sorrir, falar, amar, perdoar, oferecer presença e ternura.
Hoje posso dizer “eu te amo” sem medo, porque sei que a oportunidade de dizer amanhã não está garantida.
Hoje posso libertar mágoas, soltar ressentimentos, deixar ir aquilo que me prende à dor.
Hoje posso ser verdadeiramente viva, consciente da minha finitude, mas intensa na minha humanidade.

Somos passageiros, frágeis, mortais.
Mas também somos capazes de tocar almas, de deixar marcas invisíveis, de construir eternidades em instantes.
Cada gesto de amor, cada palavra de perdão, cada olhar de cuidado, é um tesouro que o tempo não pode apagar.
E cada instante vivido com presença e consciência é um grito de resistência contra a efemeridade da existência.

Por isso escolho a vida, aqui e agora.
Escolho amar sem reservas.
Escolho perdoar, abraçar, sorrir, sentir e entregar-me.
Escolho ser inteira, ainda que efémera, ainda que passageira, ainda que vulnerável.

Porque só assim posso dizer, no fim do meu caminho:
vivi, amei, senti, existi plenamente.
E isso basta.

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