"É véspera de Natal"
Há qualquer coisa de sagrado no ar, como se o mundo respirasse devagar para não acordar o Menino que está para nascer. A vida inteira parece ficar suspensa por um instante: as luzes piscam, mas aquilo que ilumina de verdade é interior. É hoje — o umbral do mistério. Hoje a história inclina-se sobre uma manjedoura e chama-lhe casa.
Jesus Cristo está para nascer.
E não nasce onde dava jeito.
Nasce onde há pouca coisa, onde há frio, improviso, cansaço e silêncio.
Nasce no lugar onde a vida acontece de verdade.
É curioso: Deus podia ter escolhido o palco, mas escolheu os bastidores. Podia ter vindo com coroas, permaneceu com panos simples. Podia ter imposto, escolheu ser acolhido. E isso muda tudo: o Omnipotente vem pequenino, totalmente dependente de braços humanos. É a força no absoluto despojamento.
Hoje não celebramos um enfeite.
Celebramos uma revolução sem gritos.
O Natal não começa nos centros comerciais — começa no coração que finalmente se rende. Começa quando deixamos cair a armadura, quando paramos de fingir que está tudo bem, quando admitimos que precisamos de colo, de sentido, de alguém que nos conheça até ao fundo… e fique.
O presépio é o espelho mais honesto que existe.
• Maria não compreendeu tudo — confiou mesmo assim.
• José teve medo — ficou mesmo assim.
• Os pastores não tinham nada — foram os primeiros convidados.
• E o Menino? O Menino não exigiu nada — apenas nasceu… por nós.
Natal não é ausência de dor; é Deus dentro dela.
Não é fim de feridas; é companhia nelas.
Não é magia barata; é encarnação: Deus no pó, na pele, no choro, no abraço.
Talvez este ano doa.
Talvez alguém falte à mesa.
Talvez a tua alegria tenha fissuras, talvez carregues cansaços que ninguém vê.
Ainda assim — ou talvez por isso mesmo — Ele nasce aí.
Não no teu ideal, mas na tua realidade.
Não no cenário perfeito, mas no que existe, tal como está.
Hoje é noite de catarse:
de largar o que pesa, de chorar o que ficou por dizer, de agradecer o que ficou, de permitir que algo renasça onde te julgavas esgotada, esgotado.
O Natal diz-te ao ouvido:
— Eu conheço o teu nome.
— Eu vi as tuas quedas.
— Eu sei o que não contaste a ninguém.
— E mesmo assim, escolho nascer em ti.
Amanhã o mundo dirá “Feliz Natal”.
Hoje, porém, é a noite do sim silencioso de Deus à nossa humanidade.
É véspera de Natal.
O céu abre-se por dentro.
A Luz aproxima-se devagar, sem alarde, mas irreversível.
E, quando o Menino respirar pela primeira vez, algo em ti também renasce.
Não porque tudo se resolveu,
mas porque já não estás sozinho, sozinha, nunca mais.
Boas festas.
Mas não dessas só de fotografia perfeita — dessas o mundo está cheio. Desejo-te festas com verdade, com gente real, com risos espontâneos e silêncios que não doem. Desejo-te mesas onde o mais importante não seja o que está servido, mas quem está sentado. Que não te falte abraço, e se faltar, que encontres braços dentro de ti para te acolher.
Que o teu Natal seja pleno, ainda que discreto.
Que seja luminoso, mesmo que as luzes se apaguem cedo.
Que seja cheio, mesmo que materialmente seja simples.
Desejo-te a graça das pequenas coisas:
o chá quente, a manta, a gargalhada inesperada, a memória de quem já partiu mas continua vivo em ti, as conversas que curam sem se darem importância, o sentir que pertences a alguém e a ti mesma, a ti mesmo.
Que o Ano Novo que se aproxima não venha embrulhado em pressão para seres perfeita, perfeito — mas em liberdade para seres verdadeira, verdadeiro. Que tragas contigo não promessas cansadas, mas decisões mansas: cuidar mais de ti, falar com carinho, colocar limites sem culpa, escolher a paz que não faz barulho.
Que tenhas tempo.
Tempo para quem amas.
Tempo para ti.
Tempo para Deus, se crês — e, se não crês, tempo para o mistério de estares vivo.
Desejo-te coragem para começar de novo quando for preciso e serenidade para permanecer quando o lugar for o certo. Desejo-te encontros que acrescentem e despedidas que libertem. Desejo-te saúde no corpo, descanso na mente e abrigo na alma.
E, sobretudo, desejo-te isto:
que saibas, com a certeza tranquila de quem já atravessou tempestades, que és importante, és necessária, és necessário, e a tua vida tem sentido.
Boas festas.
Bom Natal ao teu coração — esse lugar onde Deus, o amor, a vida, como lhe quiseres chamar, gosta de nascer em silêncio e ficar.
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