"Verdadeiramente"
Sabes… há verdades que só se aprendem na carne, em silêncio, quando o coração já não tem onde esconder as feridas. Há quedas que não vêm do peso do que colhemos, mas do golpe inesperado de quem, por todos os motivos do mundo, jamais deveria ter levantado a mão. E há momentos em que a vida parece exigir forças que já não sabemos se possuímos.
Mas, com o tempo — e com a graça — percebi que o que realmente magoa nem sempre é lidar com os resultados das minhas escolhas. O que mais fere, o que verdadeiramente dobra a alma, são os gestos e as palavras vindos daqueles que deveriam caminhar ao meu lado. Aqueles que, por conhecerem o mapa do meu coração, sabem onde fica cada fragilidade — e ainda assim, escolhem tocar precisamente onde dói.
É um espanto triste perceber como, enquanto eu tentava plantar o bem com sinceridade, houve mãos que se apressaram a arrancar as raízes antes mesmo de a semente pressentir a primeira luz. A maior dor não estava no que eu plantava; estava na injustiça de ser atacada por quem deveria reconhecer a coragem de construir algo com verdade.
E, quando finalmente entendi isto, a revelação foi quase luminosa: os verdadeiros inimigos raramente são estranhos. Os estranhos olham de longe, julgam de longe, falam de longe — mas não têm chave nenhuma para a minha alma. Quem fere mais fundo é quem eu deixei entrar, é quem já bebeu da minha água, é quem me ouviu partilhar aquilo que nunca digo a mais ninguém.
Essa consciência cria um silêncio que não se explica. É um silêncio que atravessa a alma inteira. Não se chora apenas pela traição — chora-se pela ingenuidade de ter acreditado que todos desejam ver-nos florescer. A decepção não é apenas com o outro; é connosco, por termos amado com demasiada transparência, por termos acreditado que o bem, só por ser bem, seria suficiente.
Mas mesmo dececionado, o coração tem um dever sagrado: continuar. Mesmo ferido, mesmo cansado, mesmo com cicatrizes, ele precisa de recordar que aquilo que plantamos não depende da aprovação de ninguém. Os ataques, por mais injustos, não definem o propósito que Deus escreveu para mim antes ainda que eu aprendesse a pronunciar o meu nome.
E acredita — a verdadeira força não está em evitar feridas. Nunca esteve. A força real está em não permitir que essas feridas decidam o rumo da minha vida. Está em continuar a plantar mesmo quando arrancam. Está em continuar a amar mesmo quando ferem. Está em continuar a caminhar mesmo quando me tentam derrubar.
Hoje, no dia da Imaculada Conceição, penso nisto com outra luz. Peço à Mãe do Céu que me abrace, que me cubra com o Seu manto, que cure aquilo que o mundo feriu. Peço-Lhe que toque com ternura os lugares onde a dor se instalou e que me devolva a clareza de saber quem sou — filha da Luz, antes de tudo, antes de qualquer sombra, antes de qualquer mágoa.
E peço também por ti.
Peço que a Mãe te ilumine onde o ressentimento te escurece.
Peço que te cure onde a mágoa te endurece.
Peço que te erga onde o orgulho te derruba.
Não quero o teu mal, nunca quis.
Quero apenas que pares de falar de mim, que pares de construir sombras onde não existe nada para além do teu próprio medo. Quero que deixes de fazer vítimas que nada têm a ver com a nossa história. Quero que vivas rodeada de pessoas que te vejam, que te valorizem, que cuidem de ti.
Eu sigo o meu caminho — firme, mas sereno.
E desejo que sigas o teu — sem me carregar na tua dor, sem me transformar naquilo que nunca fui.
Porque, no final, o bem que uma alma planta, ninguém destrói.
E a Luz — a verdadeira Luz — nenhuma sombra consegue apagar.
Olá. Só posso escrever que está lindíssimo, escrito com coerência e clareza. Identifico-me com este texto de uma forma quase sobrenatural, fala ao coração. Obrigado.
ResponderEliminarOlá... Muito obrigada.
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