"Encontros"

 Há encontros que parecem ter hora marcada com a nossa alma.

Não sabemos explicar — apenas sentimos. Há pessoas que não passam por nós por acaso: cruzam-se no nosso caminho como quem acende uma luz, desperta memórias antigas ou nos lembra quem somos. Às vezes bastam poucas palavras para reconhecermos esse lugar de pertença silenciosa: uma sintonia que não se força, uma paz que não se explica.

Mas destino não significa permanência.

Nem todos os que chegam ficam, e isso também faz parte do percurso. A maturidade de cada um, o caminho interior que escolhe trilhar, a coragem ou o medo que habita dentro de si — tudo isso define o que nasce, o que cresce e o que inevitavelmente se desfaz. Há encontros que são casa e outros que são apenas estação. Há quem nos acompanhe um capítulo, e há quem não saiba ficar até ao fim da história.

Existem também os desencontros que nós próprios causamos.
Afastamo-nos de nós, calamos o que sentimos, abandonamos a nossa essência para caber em lugares que não nos acolhem. Quando nos deixamos, perdemo-nos também dos outros. A distância, muitas vezes, começa dentro.

Há ainda os que afastam intencionalmente — não por amor, mas por inveja.
Intrigas que não nascem da verdade, mas da carência. Há quem não suporte ver o brilho que não controla e, então, semeia dúvidas, alimenta mal-entendidos e distorce gestos simples. Fingem preocupação, mas desejam divisão; não protegem, fragmentam; não suportam o que é autêntico, porque a autenticidade denuncia o vazio que carregam.

E há um ciúme ainda mais silencioso: o ciúme da amizade alheia.
Há quem não tolere ver um vínculo verdadeiro que não passe por si. Aproximam-se não para somar, mas para vigiar; insinuações leves aqui, comentários “inocentes” ali, pequenas sementes lançadas ao vento — e, sem darmos por isso, amizades profundas começam a ser corroídas. Não é amor, é posse. Não é cuidado, é insegurança mal resolvida. O ciúme da amizade alheia não suporta partilhas livres, porque não sabe amar sem controlar.

Mas a verdade é simples: quem ama não isola — amplia.
Quem é inteiro não precisa destruir o que os outros constroem.

Por isso insisto: os encontros que importam exigem responsabilidade emocional.
Exigem cuidado, escolha diária, verdade dita com delicadeza e firmeza. Não basta “sentir algo especial”; é preciso estar inteiro, saber permanecer, não fugir ao trabalho de crescer. A ligação profunda não é milagre permanente — é construção. E construção pede presença.

Eu, como mulher que observa, analisa e procura alinhar atitudes com consciência, sei bem o peso destas escolhas. Aprendi que não basta desejar o bem — é preciso praticá-lo. E que maturidade é reconhecer também quando o melhor é seguir caminhos separados. Há relações que fazem florescer, e há outras que nos murcham lentamente. Liberdade é saber distinguir: o que me acrescenta? o que me apaga? quem caminha comigo? quem apenas me consome?

Seguir em frente nem sempre é desamor; muitas vezes é amor-próprio.
É recusar permanecer onde a alma encolhe. É deixar ir aquilo que vive de intriga, de medo e de ciúme. É escolher vínculos que nos elevam, não prisões que nos diminuem.

No fim, tudo se resume a isto:
há pessoas que chegam para despertar, outras para ensinar, outras para partir — e todas, sem exceção, nos transformam. O essencial é não nos perdermos de nós no meio do caminho. Que saibamos acolher quem vem por amor, libertar o que precisa partir e silenciar definitivamente o ruído das intrigas e dos ciúmes.

Porque a vida, com a sua elegante sabedoria, repete-nos sempre a mesma lição:
o que é verdadeiro permanece — não por acaso, mas por escolha.

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