"E se..."

 Se a vida viesse com data marcada, talvez aprendêssemos a tocar nela com mais cuidado.

Talvez a tratássemos menos como um recurso infinito e mais como aquilo que é: frágil, breve, irrepetível. A pressa perderia estatuto. O amor deixaria de ser adiado.

Talvez ficássemos mais tempo onde realmente importa.
Menos ocupados a provar, mais disponíveis para estar.
Menos orgulhosos, mais permeáveis.
Diríamos “obrigado” com consciência, “desculpa” sem humilhação, “fica” sem medo.

Mas o tempo não faz avisos.
Não envia sinais.
Não se explica.

Avança em silêncio, enquanto achamos que ainda há margem, enquanto empilhamos dias como se fossem garantias. E, sem alarme, transforma o “depois” em “nunca chegou a ser”.

O que não se vive no tempo certo não amadurece — perde-se.

Por isso, talvez a urgência verdadeira não seja fazer mais, mas sentir melhor. Sentir agora. Com presença inteira. Com o corpo, com o coração, com a imperfeição que nos cabe.

Abraçar sem medir consequências.
Chorar sem pedir licença.
Rir sem tentar parecer controlado.
Ficar nos momentos em que a alma pede companhia, mesmo quando o mundo exige desempenho.

Que a vida não seja um arquivo de dias cumpridos, mas um território habitado. Um lugar onde passámos de verdade, deixando marcas e permitindo que nos marcassem.

Porque quando tudo terminar — e termina sempre — não será o que acumulámos que nos sustentará a memória. Não será o que vencemos, nem o que possuímos, nem o que mostramos.

Será o amor que deixámos em circulação.
A delicadeza praticada quando ninguém via.
A coragem de estar presente.
A ternura que não adiámos.

No fim, o que aquece o peito
não é a quantidade de vida vivida,
mas a intensidade com que nos deixámos atravessar por ela.

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