"Mundo faz-de-conta"

Vivemos — digamos sem rodeios — num palco bem iluminado, com carpete limpa e cortinas pesadas, onde a palavra de ordem é fingir. Fingir felicidade, harmonia, sucesso, estética, coerência. Fingir que dói pouco. Fingir que “está tudo bem” enquanto a alma aprende a respirar por entre os dentes cerrados. O mundo faz-de-conta é confortável, fotogénico e venenoso. E, no entanto, somos educados para habitá-lo com um sorriso treinado e uma gramática obediente.

Dizem-nos:  sê monotemática, não tragas tristeza à mesa, não incomodes com temas que não cabem em legendas curtas. A dor é tolerada desde que silenciosa, higienizada, com filtros quentes e ângulo favorável. Se falas, falas demais; se calas, és fria. A exigência é esta: sê uma mulher funcional — doméstica na aflição, decorativa na presença, discreta no brilho.

Há um guião tácito que nos empurram para as mãos: penteia o cabelo, posa para a fotografia, sorri com os dentes que doem, esconde a ansiedade para a terapia — de preferência, sem recibo. Sê “forte”, mas não confrontes. Sê inteligente, mas não demasiado. Sê assertiva, mas com voz baixa. E se ele contar uma piada machista, ri — que o riso feminino ainda é tomado como prova de boa educação. Endireita as costas, elogia-o, sê breve nas respostas: não perturbes o centro do mundo — que raramente é teu.

O corpo torna-se projeto, campo de batalha, investimento: alinha, emagrece, retoca, aumenta, corrige — “depois pensas na escrita”, dizem. Como se pensar fosse ornamento e não fundamento. Como se a mulher tivesse de ser, primeiro, consumível para poder ser, depois, escutável. Há uma pedagogia subtil do silenciamento: primeiro trabalha a imagem; o resto pode esperar. Ninguém ouve uma mulher que não pretende "comer"— repetem como profecia e ameaça.

E nós aprendemos a gramática da hipocrisia social: posts em hotéis que se fazem passar por casas próprias, felicidades por atacado, legendas motivacionais para vidas exaustas. Um brinde — sim — aos vencedores que se alimentam do cansaço alheio, às narrativas onde os fracos não entram na história porque nunca lhes deram papel. Um brinde à geração que se fotografa ao espelho para ver se existe, que se mede em métricas que não cabem no peito, que confunde validação com amor e performance com identidade.

Mas há um ponto de rutura. Um não que sobe do estômago para a boca. Um basta que não pede licença. Não — não vou repetir a coreografia. Não vou caber em molduras que encolhem o meu corpo e abafam a minha voz. Não vou fazer da minha tristeza um objeto de decoração nem da minha alegria um produto. Quero o direito à contradição, ao erro, ao desassossego, ao pensamento demorado. Quero falar — e não apenas embelezar silêncios.

Este texto não é só denúncia; é confissão e compromisso. Confesso o cansaço de representar papéis alheios e o peso de expectativas que não escolhi. Comprometo-me com o incómodo: com a honestidade que desarruma salas de estar, com a ternura que não se confunde com submissão, com uma alegria que não precisa de aprovação para existir. Não quero ser “boa menina”; quero ser inteira — mesmo quando isso desagrada ao guião.

A cultura do faz-de-conta ensina-nos a fingir que não dói. A maturidade ensina-nos a admitir que dói… e ainda assim continuar. Não para agradar, mas para existir com verdade. Ser mulher — hoje — é um ato radical de autoria: escrever o próprio corpo, o próprio discurso, a própria história, apesar dos coros de fundo que pedem silêncio.

Que fique claro: não somos avatares fotogénicos. Somos carne, pensamento, desejo, falha, memória, inquietação. Somos a frase que se recusa a caber na legenda. E é precisamente aí que começa a liberdade: no momento em que deixamos cair o sorriso obrigatório, libertamos os ombros e ousamos dizer — sem pedir desculpa — eu estou aqui, inteira, complexa, imperfeita… e não vou calar.

O resto é cenário. Nós somos o texto.



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