"Florescer"

 Os dias mais marcantes não são os mais ruidosos.

São aqueles de que saímos ligeiramente diferentes. Não necessariamente mais felizes, mas mais lúcidos. São os dias que nos atravessam sem anestesia, que nos colocam frente a frente com verdades que não pedimos, mas de que precisamos. Verdades que fazem crescer — e, por vezes, endurecer.

Há que ter cuidado com esse endurecer.
Muito cuidado.

Porque a dor, quando não é cuidada, transforma defesa em prisão. E sem nos apercebermos, começamos a blindar o coração, a substituir a pele por armadura, a trocar a flor pela pedra. O mundo ensina-nos a resistir, mas raramente nos ensina a permanecer sensíveis sem nos quebrarmos.

Todos nós passamos por sustos.
Momentos em que o chão falha e a realidade deixa de obedecer às expectativas. Há quedas que não avisam, perdas que não explicam, silêncios que ferem mais do que palavras. Nessas alturas, fechamo-nos. Ressentimo-nos. Protegemo-nos como sabemos.

Mas é preciso uma força muito particular para voltar a ser semente depois de ter sido pedra.
Para confiar novamente no solo depois de tantas fissuras.
Para transformar pequenas gotas de orvalho em chuva que lava, e não em peso que afunda.

Chorar a mágoa.
Aceitar a dor.
E, ainda assim, escolher não ficar ali.

Não é de um dia para o outro que nos tornamos duros. A dor é cumulativa. Vai-se somando, camada sobre camada, até que, sem darmos conta, aquilo que era sensível se torna rígido. Aos poucos fui-me tecendo em cimento, concreto, rocha. Aos poucos, a menina que um dia foi flor aprendeu a sobreviver como pedra.

Mas ninguém é verdadeiramente inteiro quando perde a fé.
Quando deixa de acreditar que ainda pode haver dias leves, noites tranquilas, risos que não custam esforço. Quando já não há emoção, apenas controlo. Quando falta amor e sobra rancor. Quando o coração deixa de transpirar vida.

É para isso que existe o tempo.
Não para apagar, mas para cuidar.
O tempo que sopra sobre as feridas como quem não tem pressa. O tempo que amacia o solo árido das crenças cansadas. O tempo que seca o pranto sem o negar e restaura a dor sem a banalizar.

O tempo que permite que o que foi pedra volte a ser flor.

E, contrariando tudo o que parecia provável, a flor rasga o chão.
Rompe o cimento.
Encontra uma fenda mal fechada na rocha e brota inteira — não ingénua, mas verdadeira. Forte, não por ausência de dor, mas por ter aprendido a atravessá-la.

Essa flor desafia intempéries, resiste ao vento, sustenta-se como alicerce onde antes só havia dureza. É delicada sem ser frágil. É firme sem perder a ternura.

Que haja mais motivos para ser flor do que pedra.
Que a minha alma não endureça ao ponto de murchar perante o primeiro obstáculo, nem seque diante da aridez do caminho. Que não me faltem brisas de esperança, chuvas que limpam e uma luz tranquila que aqueça sem queimar.

Os dias mais marcantes são aqueles em que a vida contraria o óbvio.
Em que começos difíceis não determinam finais amargos.
Em que um pensamento sereno consegue levar embora um furacão inteiro de sentimentos. Dias em que a urgência de ser feliz aprende a transformar-se em calmaria consciente.

Dias em que a poesia fala mais alto do que o ruído.
E em que, apesar de tudo, escolho continuar a florescer.

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